Do Local ao Global: como saberes ancestrais estão moldando políticas públicas*
- Débora Monteiro
- 1 de abr.
- 14 min de leitura
Missão internacional promove intercâmbio sobre modelos inovadores de governança e busca fortalecer a proteção de espaços tradicionais sob pressão no Cone Sul
*Texto en español al final

A articulação entre ciência e movimentos sociais deu um passo importante para a governança territorial na América Latina. Em janeiro de 2026, a Rede Marangatu integrou o X Congresso da Identidade Territorial Lafkenche — organização de referência na defesa dos oceanos, maretórios e dos direitos humanos e territoriais no Chile.
Inovação na gestão
Um dos eixos centrais da missão foi o fortalecimento dos Espaços Costeiros Marinhos dos Povos Originários (ECMPOs). Este modelo é considerado uma das formas mais inovadoras de gestão costeira na atualidade, pois reconhece o protagonismo das comunidades na proteção dos oceanos a partir de seus conhecimentos ancestrais.
A proposta dos ECMPOs permite uma compreensão profunda sobre a urgência de gerir a água de forma sistêmica. Em vez de divisões burocráticas, defende-se a visão da água em sua totalidade: das montanhas ao mar. Essa perspectiva é vital para enfrentar modelos extrativistas que fragmentam o ciclo ambiental e ameaçam a segurança hídrica e alimentar das populações.
Fortalecimento diante de pressões territoriais
No cenário atual, as organizações tradicionais no Chile enfrentam ataques e pressões crescentes sobre seus territórios. A presença da cooperação internacional busca justamente fortalecer essas estruturas locais. O intercâmbio entre o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) e o povo Lafkenche permitiu a troca de tecnologias sociais e metodologias de "ecologia de saberes", essenciais para a resistência e o bem-viver diante da ofensiva extrativista.
Ciência e território na saúde pública
A agenda na Universidade do Chile, em Santiago (Chile), reforçou a conexão entre patrimônio biocultural e saúde coletiva. O diálogo com a Escola de Saúde Pública buscou construir respostas compartilhadas para desafios como a justiça climática e a saúde das águas.

Segundo Edmundo Gallo, pesquisador titular da Fiocruz e coordenador da Rede Marangatu e do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), o objetivo é garantir que os povos tradicionais sejam sujeitos centrais na produção de conhecimento. A parceria busca integrar o rigor acadêmico à vivência territorial, reconhecendo que territórios saudáveis dependem da autonomia e do saber de quem neles habita.
O pesquisador do OTSS Chico da Almada, integrante da Frente de Pesca Artesanal do FCT e da Rede Marangatu, acompanhou a missão internacional no Chile e destaca a importância dessa oportunidade para manter a relação próxima com os mapuches, essencial para as lutas dos movimentos sociais no Brasil. "Nessa viagem vivenciamos ainda mais seus modos de ser e fazer, e como reivindicam seus direitos à pesca, à terra, à água, aos alimentos, para fazer a autogestão dos seus territórios", explica. "Por causa da nossa experiência e da participação na Rede Marangatu - rede de ciência cidadã, pesquisa da sociobiodiversidade, gestão costeira e marinha - fomos representando o Brasil para colaborar na revisão da lei Lafkenche, que regimenta os espaço marítimos de povos originários no Chile, onde há vários conflitos acontecendo no momento".
O mar como território
A articulação entre Brasil e Chile reforça uma agenda inovadora de gestão costeira e marinha, com base no protagonismo dos povos originários e tradicionais, diante do avanço de ameaças sobre esses territórios.
A cooperação internacional, impulsionada pela Rede Marangatu - que articula instituições de Ciência, Tecnologia e Inovação e instituições de movimentos sociais de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs), bem como organizações latino-americanas - ganha força como estratégia para influenciar políticas públicas e fortalecer a governança territorializada na América Latina.
Nesse processo, o diálogo entre PCTs, universidades e instituições de saúde e pesquisa ampliam o alcance de experiências locais transformando práticas territoriais em referências de incidência nacional e internacional.
Nesse contexto, em janeiro de 2026 a Rede Marangatu participou do X Congresso da Identidade Territorial Lafkenche, em Chiloé (Chile). A participação ocorreu a partir de uma articulação coletiva impulsionada pela Red de Mujeres Originarias en Defensa del Mar, a Identidade Territorial Lafkenche, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), a Rede Marangatu, além de fóruns territoriais e universidades parceiras.
A Identidade Territorial Lafkenche, organização de referência no Chile, tem papel central na defesa dos Espaços Costeiros Marinhos dos Povos Originários. Esses espaços representam hoje uma das experiências mais inovadoras de gestão costeira e marinha na América Latina, ao reconhecer que a proteção do mar, da biodiversidade e dos modos de vida tradicionais depende da relação viva entre território, cultura, ancestralidade e natureza.
Edmundo Gallo explica: “Mais do que uma política de ordenamento do litoral, essa experiência ajuda a afirmar uma visão ampliada da água. Trata-se de compreender a água em sua complexidade, em seu ciclo integral e em sua conexão entre diferentes territórios e formas de vida — das montanhas ao mar. Essa perspectiva desafia modelos fragmentados de gestão ambiental e reforça a urgência de pensarmos rios, costas, oceanos e comunidades como parte de um mesmo sistema ecológico, social e cultural”.
No Chile, esses espaços costeiros e marinhos originários sofrem ataques e pressões crescentes, em meio ao avanço de interesses econômicos e da ofensiva extrativista sobre os maretórios. Nesse cenário, fortalecer os Espaços Costeiros Marinhos dos Povos Originários significa defender não apenas direitos territoriais, mas também uma alternativa concreta e inovadora para enfrentar a crise climática, proteger a biodiversidade e garantir formas mais justas e sustentáveis de governança das águas.
"Assim como no Brasil, no Chile o povo luta pelo espaço para a pesca tradicional. E aprendendo com a experiência dos mapuche, estamos trabalhando na regularização fundiária do maretório e aquatório, atuando em especial com povos e comunidades tradicionais do litoral sul de São Paulo e litoral norte do Rio de Janeiro: os polígonos da Marangatu são estratégicos para a garantia do maretório para a pesca tradicional, para moradia, para o bem-viver", Chico da Almada
A parceria entre o FCT e o OTSS inspira a Rede Marangatu e contribui para fortalecer diálogos sobre bem-viver, saúde, ecologia de saberes e tecnologias sociais, ampliando a conexão entre lutas territoriais do Cone Sul.
A missão internacional contou com a participação de pesquisadoras, pesquisadores e da gestão da Rede Marangatu, consolidando-se como uma oportunidade importante de intercâmbio entre experiências desenvolvidas no Brasil e no Chile.
Ciência e território na saúde pública: Seminário na Escola de Saúde Pública da Universidade do Chile amplia pontes entre ciência e saberes territoriais

A missão internacional ao Chile também abriu espaço para uma agenda estratégica no campo da saúde coletiva, por meio do diálogo com a Universidade do Chile e a Escola de Saúde Pública da Universidade do Chile, em Santiago.
Mais do que um encontro acadêmico institucional, a agenda representou uma oportunidade de aproximar a universidade dos povos originários e tradicionais do Chile, valorizando o diálogo entre saber científico, conhecimentos territoriais e patrimônio biocultural. Em um momento em que os desafios da saúde, da perda de biodiversidade e da justiça climática se aprofundam em escala global e nacional, essa aproximação ganha peso político e estratégico.

Júlia Borges, pesquisadora da Rede Marangatu e da Rede de Defensoras e Defensores dos Territórios Tradicionais, comenta: “O diálogo de saberes não é um favor que a universidade faz, é uma necessidade da ciência. Na saúde pública, a confiança funciona como uma infraestrutura: sem ela, o conhecimento não circula e as soluções não chegam ao chão do território. Atuar para justiça climática é reconhecer que quem protege a biodiversidade — os povos originários e tradicionais — precisa ser parte ativa da construção de soluções e da governança do processo".
“Para a Escola de Saúde Pública da Universidade do Chile, é muito valioso aprender sobre experiências como as do OTSS e da Rede Marangatu, que realizam processos de co-construção e trabalho colaborativo com os territórios e a comunidade organizada, o que nos faz refletir sobre nossas próprias práticas e, ao mesmo tempo, construir pontes para a criação de redes colaborativas”, Maria Sol Anigstein, Antropóloga Social, Professora na Escuela de Salud Pública Salvador Allende y Departamento de Antropología da Universidad do Chile.
A participação da Rede Marangatu ajudou a apresentar experiências e metodologias que articulam universidade, pesquisa aplicada, movimentos sociais e comunidades tradicionais. A mesa de diálogo reforçou a importância de construir respostas compartilhadas para problemas complexos, reconhecendo os povos como sujeitos centrais na produção de conhecimento e na formulação de caminhos para territórios saudáveis e sustentáveis.
Segundo Indira Alves, coordenadora da Gestão de Saberes do OTSS, a Fiocruz tem entre seus princípios o diálogo com movimentos sociais e a promoção da cidadania.
"Nessa perspectiva, trabalhar com o patrimônio biocultural na articulação da Rede Marangatu, de modo a garantir que Povos e Comunidades Tradicionais sejam protagonistas no uso e na produção de elementos derivados da biodiversidade, é uma tarefa central", Indira Alves
Para ela, a Fiocruz contribui com conhecimento acadêmico e experiência em saúde e biodiversidade para fortalecer o diálogo com comunitárias e comunitários tradicionais.
A partir desses encontros, abrem-se novas possibilidades de relação entre conhecimento científico e saber tradicional. Esse movimento amplia a capacidade da academia de dialogar com os povos originários e tradicionais e de reconhecer a centralidade desses sujeitos na construção de soluções para desafios que são, ao mesmo tempo, locais, nacionais e internacionais.
Rede Marangatu
Formada por Instituições científicas, Movimentos sociais e Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs), a Rede Marangatu é uma rede de ciência cidadã que faz parte do Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) e conta com o apoio e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPQ e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação - MCTI.
A Marangatu Sudeste, no Rio de Janeiro e São Paulo, está integrada pelo OTSS e FCT, Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e Universidade de Aveiro (Portugal)
A Marangatu Sul, em Santa Catarina, é composta pela Universidade do Sul de Santa Catarina e Universidade do Estado de Santa Catarina, em parceria com a Universidade do Chile e a Tekoa Marangatu, O Quilombo da Taboa e descendentes de açorianas e açorianos
A Marangatu Nordeste, em Sergipe, tem parceria com o Fórum de Comunidades Tradicionais de Sergipe e a Universidade Federal de Sergipe (UFS)
A Marangatu Norte, no Pará, está integrada pela Universidade Federal do Pará, Universidade Estadual do Pará e Observatório do Mangue.
A Marangatu Coimbra atua na Paraíba, composta pelo Centro Ecologia Funcional (CFE) e Universidade de Coimbra (Portugal)
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Reportagem: Júlia Borges, Débora Nobre Monteiro e Juliana Vilas
De lo local a lo global: cómo los saberes ancestrales están dando forma a las políticas públicas
Una misión internacional impulsa el intercambio sobre modelos innovadores de gobernanza y busca fortalecer la protección de espacios tradicionales bajo presión en el Cono Sur
La articulación entre ciencia y movimientos sociales dio un paso importante para la gobernanza territorial en América Latina. En enero de 2026, la Red Marangatu participó en el X Congreso de la Identidad Territorial Lafkenche, organización de referencia en la defensa de los océanos, los maritorios y los derechos humanos y territoriales en Chile.
Innovación en la gestión
Uno de los ejes centrales de la misión fue el fortalecimiento de los Espacios Costeros Marinos de Pueblos Originarios (ECMPOs). Este modelo es considerado una de las formas más innovadoras de gestión costera en la actualidad, ya que reconoce el protagonismo de las comunidades en la protección de los océanos a partir de sus conocimientos ancestrales.
La propuesta de los ECMPOs permite una comprensión profunda sobre la urgencia de gestionar el agua de manera sistémica. En lugar de divisiones burocráticas, se defiende una visión del agua en su totalidad: desde las montañas hasta el mar. Esta perspectiva es clave para enfrentar modelos extractivistas que fragmentan el ciclo ambiental y amenazan la seguridad hídrica y alimentaria de las poblaciones.
Fortalecimiento frente a las presiones territoriales
En el escenario actual, las organizaciones tradicionales en Chile enfrentan ataques y presiones crecientes sobre sus territorios. La cooperación internacional busca precisamente fortalecer estas estructuras locales. El intercambio entre el Foro de Comunidades Tradicionales (FCT) y el pueblo Lafkenche permitió compartir tecnologías sociales y metodologías de ecología de saberes, fundamentales para la resistencia y el buen vivir frente al avance extractivista.
Ciencia y territorio en la salud pública
La agenda en Santiago, en la Universidad de Chile, reforzó la conexión entre patrimonio biocultural y salud colectiva. El diálogo con la Escuela de Salud Pública buscó construir respuestas compartidas frente a desafíos como la justicia climática y la salud de las aguas.
Según Edmundo Gallo, de Fiocruz, el objetivo es garantizar que los pueblos tradicionales sean sujetos centrales en la producción de conocimiento. La alianza busca integrar el rigor académico con la experiencia territorial, reconociendo que los territorios saludables dependen de la autonomía y del saber de quienes los habitan.
El investigador de OTSS, Chico da Almada, miembro del Frente de Pesca Artesanal del FCT y de la Red Marangatu, acompañó la misión internacional a Chile y subraya la importancia de esta oportunidad para mantener una estrecha relación con el pueblo mapuche, fundamental para las luchas de los movimientos sociales en Brasil. "En este viaje, pudimos conocer aún más sus formas de ser y de hacer, y cómo reivindican sus derechos a la pesca, la tierra, el agua y la alimentación, para así autogestionar sus territorios", explica. "Gracias a nuestra experiencia y participación en la Red Marangatu —una red de ciencia ciudadana, investigación sociobiodiversidad y gestión costera y marina— representamos a Brasil para colaborar en la revisión de la ley Lafkenche, que regula los espacios marítimos de los pueblos indígenas en Chile, donde actualmente se desarrollan varios conflictos".
El mar como territorio
La articulación entre Brasil y Chile refuerza una agenda innovadora de gestión costera y marina, basada en el protagonismo de los pueblos originarios y tradicionales, frente al avance de amenazas sobre estos territorios.
La cooperación internacional impulsada por la Red Marangatu, al articular instituciones de Ciencia, Tecnología e Innovación junto a movimientos sociales de Pueblos y Comunidades Tradicionales (PCTs) y organizaciones latinoamericanas, se consolida como una estrategia para incidir en políticas públicas y fortalecer la gobernanza territorializada en América Latina.
En este proceso, el diálogo entre PCTs, universidades e instituciones de salud e investigación amplía el alcance de experiencias locales, transformando prácticas territoriales en referencias de incidencia nacional e internacional.
Fue en este contexto que, en enero de 2026, la Red Marangatu participó en el X Congreso de la Identidad Territorial Lafkenche, en Chiloé, Chile. La participación se dio a partir de una articulación colectiva impulsada por la Red de Mujeres Originarias en Defensa del Mar, la Identidad Territorial Lafkenche, la Fundación Oswaldo Cruz (Fiocruz), el Observatorio de Territorios Sustentables y Saludables de Bocaina (OTSS), el Foro de Comunidades Tradicionales (FCT), la Red Marangatu, además de foros territoriales y universidades aliadas.
La Identidad Territorial Lafkenche, organización de referencia en Chile, cumple un papel central en la defensa de los Espacios Costeros Marinos de Pueblos Originarios. Estos espacios representan hoy una de las experiencias más innovadoras de gestión costera y marina en América Latina, al reconocer que la protección del mar, de la biodiversidad y de los modos de vida tradicionales depende de la relación viva entre territorio, cultura, ancestralidad y naturaleza.
Edmundo Gallo explica: “Más que una política de ordenamiento del litoral, esta experiencia ayuda a afirmar una visión ampliada del agua. Se trata de comprender el agua en su complejidad, en su ciclo integral y en su conexión entre distintos territorios y formas de vida —desde las montañas hasta el mar. Esta perspectiva desafía modelos fragmentados de gestión ambiental y refuerza la urgencia de pensar ríos, costas, océanos y comunidades como parte de un mismo sistema ecológico, social y cultural”.
En Chile, estos espacios costeros y marinos de los pueblos originarios enfrentan ataques y presiones crecientes, en medio del avance de intereses económicos y de la ofensiva extractivista sobre los maritorios. En este escenario, fortalecer los Espacios Costeros Marinos de Pueblos Originarios significa defender no solo derechos territoriales, sino también una alternativa concreta e innovadora para enfrentar la crisis climática, proteger la biodiversidad y garantizar formas más justas y sostenibles de gobernanza de las aguas.
"Al igual que en Brasil, en Chile la gente lucha por espacios para la pesca tradicional. Y aprendiendo de la experiencia mapuche, estamos trabajando en la regularización territorial de las áreas marinas y acuáticas, actuando especialmente con los pueblos y comunidades tradicionales de la costa sur de São Paulo y la costa norte de Río de Janeiro: los polígonos de Marangatu son estratégicos para garantizar el área marina para la pesca tradicional, para la vivienda y para el bienestar", Chico da Almada
La alianza entre el Foro de Comunidades Tradicionales (FCT) y el Observatorio de Territorios Sustentables y Saludables de Bocaina (OTSS) inspira a la Red Marangatu y ha contribuido a fortalecer diálogos sobre buen vivir, salud, ecología de saberes y tecnologías sociales, ampliando la conexión entre luchas territoriales del Cono Sur. La misión internacional contó con la participación de investigadoras, investigadores y del equipo de gestión de la Red Marangatu, y se consolidó como una oportunidad relevante de intercambio entre experiencias desarrolladas en Brasil y en Chile.
Ciencia y territorio en la salud pública: seminario en la Escuela de Salud Pública de la Universidad de Chile amplía puentes entre ciencia y saberes territoriales
La misión internacional a Chile también abrió espacio para una agenda estratégica en el campo de la salud colectiva, a través del diálogo con la Universidad de Chile y la Escuela de Salud Pública de la Universidad de Chile, en Santiago.
Más que un encuentro académico institucional, la agenda representó una oportunidad para acercar la universidad a los pueblos originarios y tradicionales de Chile, valorizando el diálogo entre conocimiento científico, saberes territoriales y patrimonio biocultural. En un momento en que los desafíos de la salud, la pérdida de biodiversidad y la justicia climática se profundizan a escala global y nacional, este acercamiento adquiere peso político y estratégico.
Júlia Borges, investigadora de la Red Marangatu y de la Red de Defensoras y Defensores de los Territorios Tradicionales, señala: “El diálogo de saberes no es un favor que la universidad hace, es una necesidad de la ciencia. En salud pública, la confianza funciona como una infraestructura: sin ella, el conocimiento no circula y las soluciones no llegan al territorio. Actuar por la justicia climática es reconocer que quienes protegen la biodiversidad —los pueblos originarios y tradicionales— deben ser parte activa de la construcción de soluciones y de la gobernanza del proceso”.
La participación de la Red Marangatu ayudó a presentar experiencias y metodologías que articulan universidad, investigación aplicada, movimientos sociales y comunidades tradicionales. La mesa de diálogo reforzó la importancia de construir respuestas compartidas frente a problemas complejos, reconociendo a los pueblos como sujetos centrales en la producción de conocimiento y en la formulación de caminos hacia territorios saludables y sostenibles.
“Para la Escuela de Salud Pública de la Universidad de Chile, es muy valioso conocer experiencias como las del observatorio y de la Red Marangatu, que han llevado adelante procesos de co-construcción y el trabajo colaborativo con los territorios y la comunidad organizada,que nos hacen reflexionar sobre nuestras propias prácticas y, a la vez, tender puentes para construir redes de colaboración”, Maria
Según Indira Alves, Fiocruz tiene entre sus principios el diálogo con los movimientos sociales y la promoción de la ciudadanía. En esta perspectiva, trabajar con el patrimonio biocultural en la articulación de la Red Marangatu, de modo de garantizar que los Pueblos y Comunidades Tradicionales sean protagonistas en el uso y en la producción de elementos derivados de la biodiversidad, es una tarea central. Para ella, Fiocruz aporta conocimiento académico y experiencia en salud y biodiversidad para fortalecer el diálogo con las comunidades tradicionales.
A partir de estos encuentros, se abren nuevas posibilidades de relación entre conocimiento científico y saber tradicional. Este movimiento amplía la capacidad de la academia para dialogar con los pueblos originarios y tradicionales y reconocer la centralidad de estos sujetos en la construcción de soluciones para desafíos que son, al mismo tiempo, locales, nacionales e internacionales.
Red Marangatu
Conformada por instituciones científicas, movimientos sociales y Pueblos y Comunidades Tradicionales (PCT), la Red Marangatu es una red de ciencia ciudadana que forma parte del Programa de Investigación en Biodiversidad (PPBio) y cuenta con el apoyo y la financiación del Consejo Nacional de Desarrollo Científico y Tecnológico (CNPq) y el Ministerio de Ciencia, Tecnología e Innovación (MCTI).
Marangatu Sudeste, en Río de Janeiro y São Paulo, está integrada por la OTSS y la FCT, la Universidad Estatal del Norte de Río de Janeiro Darcy Ribeiro y la Universidad de Aveiro (Portugal).
Marangatu Sur, en Santa Catarina, está integrada por la Universidad del Sur de Santa Catarina y la Universidad Estatal de Santa Catarina, en colaboración con la Universidad de Chile y Tekoa Marangatu, el Quilombo da Taboa y descendientes de pueblos azoreños.
Marangatu Noreste, en Sergipe, colabora con el Foro de Comunidades Tradicionales de Sergipe y la Universidad Federal de Sergipe (UFS).
Marangatu Norte, en Pará, está compuesta por la Universidad Federal de Pará, la Universidad Estadual de Pará y el Observatorio de Manglares.
Marangatu Coimbra opera en Paraíba, compuesta por el Centro de Ecología Funcional (CFE) y la Universidad de Coimbra (Portugal).














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