Cadeias locais e projeto em andamento: o futuro da juçara nas mãos das comunidades tradicionais
- Caroline Nunes

- há 1 hora
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“Estamos num processo de amadurecimento; a campanha “A Juçara é Nossa” nasceu de forma coletiva e espontânea, mas agora precisa se consolidar como um projeto estruturado, com um plano de trabalho”, enfatiza Luciano Maciel Coberllini, da Incubadora

A juçara, palmeira nativa da Mata Atlântica, é mais do que um fruto: é símbolo de resistência, cultura e sustento das comunidades tradicionais. A campanha “A Juçara é Nossa” nasceu como uma resposta à tentativa de apropriação comercial do fruto, buscando fortalecer o protagonismo dessas comunidades na preservação da espécie, na produção de polpa e sementes e na manutenção de saberes ancestrais.
Passados alguns anos, o movimento segue em construção, enfrentando desafios como a consolidação da cadeia produtiva, o reconhecimento de políticas públicas que apoiem os manejos tradicionais, e o diálogo entre a juventude e as escolas das comunidades.
Nesta entrevista, Luciano Marcel Corbellini, biólogo e assessor de Agroecologia da Incubadora de Tecnologias Sociais (ITS) do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), explica como a campanha alia conservação ambiental, educação e economia local, e como o lema “A Juçara é Nossa” se traduz em ações concretas no território.
OTSS: A campanha “A Juçara é Nossa” surge como uma resposta ao processo de cooptação de narrativas e um processo de apropriação. Passados alguns anos, por que ainda é importante afirmar que a juçara é das comunidades tradicionais?
Luciano: A campanha “A Juçara é Nossa” vem no sentido de fortalecer e dar visibilidade ao protagonismo das comunidades tradicionais no desenvolvimento da cadeia da juçara e na conservação dessa espécie, por meio do repovoamento e da produção de polpa e sementes.
Dentro desse contexto, surge também a necessidade de autoafirmação das comunidades diante do processo de apropriação do fruto e da narrativa de preservação da Mata Atlântica por grandes empreendimentos. Hoje, grandes empresas que operam no mercado do açaí no Norte começam a se estruturar para o mercado da juçara no Sudeste.
A campanha é uma resposta a esse processo, é um projeto de desenvolvimento e de conservação da Mata Atlântica — que é construído pelas comunidades e parceiros, dando visibilidade à sua luta nos territórios
OTSS: Quais são hoje os principais desafios para consolidar a campanha como um movimento permanente e não apenas uma ação pontual?
Luciano: A campanha é um processo em construção, assim como o próprio trabalho com a juçara nas comunidades. Esse trabalho vai do plantio ao processamento, ao consumo e à comercialização — passando também pelo repovoamento da espécie.
Ainda há muitos desafios. A cadeia produtiva da juçara está em estágios diferentes de desenvolvimento, porque cada comunidade tem uma realidade: há diferenças de acesso ao território, de organização e de relação com as políticas ambientais. Apesar de algumas mudanças já ocorridas nas últimas duas décadas, as políticas ambientais ainda são um entrave para os projetos de produção sustentável nas comunidades.
Nosso foco é estruturar toda a cadeia, com prioridade para o PNAE [Programa Nacional de Alimentação Escolar] e os circuitos locais. Além disso, é preciso construir uma narrativa comum, que una as comunidades em torno da identidade da campanha — ligada à Mata Atlântica, à cultura e ao desenvolvimento local.
OTSS: Em muitos territórios, o manejo sustentável da juçara é uma prática antiga, transmitida entre gerações. O que falta para que esse saber tradicional seja reconhecido e protegido por políticas públicas?
Luciano: O uso da juçara vem de gerações. Antes, era usada principalmente como palmito e material de construção — as ripas e o tronco serviam para fazer telhados, estruturas de pau-a-pique e outros utensílios.
O fruto começou a ganhar importância a partir dos anos 2000, com a chegada das tecnologias do açaí. Desde então, a cadeia da polpa vem crescendo, mas ainda falta reconhecimento institucional.
O principal gargalo não é a proteção da espécie — que já evoluiu e saiu da lista de extinção em alguns estados —, mas sim o reconhecimento do manejo tradicional e do uso comunitário dos territórios.
O que falta são políticas públicas que apoiem a agricultura tradicional, o manejo e implementação dos bananais agroflorestais e os sistemas de manejo como um todo. A legislação ambiental ainda criminaliza práticas produtivas tradicionais, o que trava o desenvolvimento da cadeia. É preciso que os órgãos ambientais e fiscalização policial compreendam essa realidade e deixem de tratar as comunidades como criminosas.
OTSS: A campanha também é um ato político e educativo. De que forma ela tem dialogado com a juventude e com as escolas nas comunidades envolvidas?
Luciano: A campanha ainda está estruturando essa frente de trabalho com as escolas e a juventude. Hoje, a juçara entra na alimentação escolar de Ubatuba por meio da polpa e mix produzido pela comunidade do Ubatumirim, mas ainda não há um trabalho educativo sistemático nas escolas, nem com estudantes, nem com o corpo docente.
A Semana da Juçara, realizada no Sertão do Ubatumirim, por exemplo, foi um primeiro passo nesse sentido. É uma retomada da articulação entre as comunidades, com foco na educação ambiental, na cultura e na incidência política. Foi a nossa primeira experiência prática de diálogo direto com as escolas municipais do Litoral Norte de Ubatuba.
OTSS: Um dos riscos apontados desde o início é a exploração comercial do fruto por grandes empresas, como aconteceu com o açaí. Esse risco ainda existe?
Luciano: Existe, sim, mas é parte de um processo mais amplo: a expansão do capital monetizando os recursos naturais e se apropriando dos territórios, com um falso discurso de sustentabilidade e justiça social.
O Fórum de Comunidades Tradicionais é, em si, uma resposta a essa lógica de controle — uma forma de resistência ao avanço de empreendimentos que visam dominar cadeias produtivas e espaços comunitários.
Isso envolve também os mercados de serviços ambientais e créditos de carbono, que hoje entram nessa dinâmica. Embora pareçam positivos, muitos desses programas acabam reforçando a apropriação dos territórios pelo capital financeiro e afastam as comunidades dos processos de decisão e posse efetiva de seus territórios.
OTSS: De que maneira o fortalecimento de cadeias locais — como o beneficiamento da polpa e o replantio — pode ajudar a consolidar o lema “A Juçara é Nossa” na prática?
Luciano: Esse é o ponto central da campanha. Falar e conscientizar é importante, mas estruturar a cadeia e garantir que o alimento chegue às escolas, às comunidades e aos mercados locais é o que de fato concretiza o lema “A Juçara é Nossa”. O repovoamento da palmeira, com foco ecológico, precisa ser ampliado, assim como a cadeia de produção agroflorestal que dê sustentação à matriz produtiva das cadeias de frutas nativas, tendo como base o protagonismo das comunidades.
Foram as comunidades tradicionais que preservaram a juçara em seus bananais, capoeiras e quintais, mesmo diante de décadas de criminalização. Onde as comunidades mantiveram o uso do território, a juçara resistiu. Onde foram expulsas, o corte predatório predominou. Hoje, com a cadeia dos frutos fortalecida, elas seguem ampliando o plantio e a produção, garantindo renda e conservação.
OTSS: A campanha nasceu de um processo coletivo e segue se reinventando com o tempo. O que significa dizer que “a campanha ainda está em construção”?
Luciano: Significa que estamos num processo de amadurecimento. A campanha nasceu de forma coletiva e espontânea, mas agora precisa se consolidar como um projeto estruturado, com um plano de trabalho, identidade visual e articulação entre diferentes grupos do Fórum de Comunidades Tradicionais.
Precisamos integrar comunicação, cultura, educação diferenciada, juventude e produtores — e transformar isso em ações conjuntas. O ingresso da juçara na alimentação escolar abre uma grande porta para repensar a educação ambiental, cultura alimentar, circuitos locais de comercialização e o repovoamento de muitas outras espécies além da Juçara nos territórios.
Também é fundamental construir um programa de ação para o replantio da juçara na Mata Atlântica, articulado com a Aliança dos Povos e Comunidades Tradicionais. Estamos no início desse processo, mas com uma base sólida de luta, saber e compromisso coletivo.
Por Caroline Nunes



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