Carrossel de Saberes oportuniza diálogo com áreas de atuação no Seminário de Integração do OTSS
- Débora Monteiro
- 9 de jul. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: 25 de fev.
Os encontros no segundo dia do Seminário de Integração do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), realizado na primeira semana de julho de 2025 em Paraty/RJ, foram marcados pelas plenárias com participação ativa das pessoas, movimentando a reflexão sobre o presente com o tema “Mostrar e contar o que estamos fazendo para promover saúde”.
Na mística de abertura, a roda para a Dança do Tangará proposta por Valdecir Wera Mirim Benites, liderança do Coral Guarani Xondaro Mirim Mborai de Ubatuba/SP e coordenador da Rede Nhandereko, teve a participação de crianças indígenas do Coral e abriu os trabalhos para o Carrossel de Saberes: quatro espaços-vivos com instalações artístico-pedagógicas pensados especialmente para contar sobre as práticas dos eixos temáticos do OTSS.
A dança-ritual do Tangará é manifestação ritual que prepara meninas e moças como futuras guardiãs das tradições Guarani, com movimentos inspirados nos pássaros Tangará, que representam alegria, liberdade, reflexão e a ligação da alma feminina com o universo.
Governança Viva
O Projeto Povos, a Rede Marangatu, a Plataforma Povos e os compromissos com a Cooperação Internacional foram apresentados na instalação da Governança Viva, dedicada à articulação de redes de solidariedade, caracterização de territórios, cooperação internacional, gestão costeira e marinha e ao planejamento territorializado. Edmundo Gallo relatou como acontece o intercâmbio de tecnologias sociais e experiências de inteligência coletiva para conseguirmos promover o diálogo de práticas em territórios de diversos países, anunciando que a Fiocruz irá abrir em breve um escritório na Etiópia, sede da União das Nações Africanas. “Nossa estratégia de cooperação triangular sul-sul aposta na tradição diplomática brasileira. Colaboramos com outros países para discutir as temáticas de maneira territorializada, mantendo contato com instituições do norte global que apoiem iniciativas decoloniais”.

Fabiana Miranda, coordenadora de Gestão Territorializada do OTSS, enfatizou que os mapas na Plataforma Povos são mapas oficiais da Fiocruz, um avanço para a garantia de direitos. “Mapas são ferramentas de poder, e é muito revolucionário a iniciativa do FCT das comunidades tradicionais construírem seus próprios mapas”.
A pesquisadora comunitária Lhorraine de Oliveira Ramos, do Quilombo da Marambaia, percebe no Projeto Povos um papel de empoderamento, de promover a compreensão das pessoas sobre o reconhecimento como povo tradicional. “Tem gente que ainda não se reconhece como caiçara, por exemplo. O Povos também contribui para o jovem perceber o quanto é importante permanecer nos territórios”. Franklin Louis, caiçara de São Sebastião e comunicador comunitário do OTSS, mencionou o protagonismo das comunidades no Povos e o impacto nos espaços escolares. “Eu acredito que as publicações são essenciais para as crianças terem acesso à cultura, à memória e à história”.
"A cartografia é instrumento de poder. Até hoje vivemos as consequências das capitanias hereditárias e dos processos de desumanização das populações indígenas, negras e caiçaras. Temos que disputar com as instituições as narrativas e as existências, especialmente para não destruírem a Constituição de 1989. No nosso trabalho, conhecimentos científicos e saberes ancestrais se fundem para fortalecer povos e comunidades tradicionais”, Leonardo Freitas.
A intenção de prototipar políticas públicas ficou evidente na fala de Luciana Araújo de Paula, pesquisadora do OTSS/Fiocruz e integrante da Frente Sudeste da Rede Marangatu, que comentou a respeito das iniciativas da rede em todo o território nacional. A experiência em desenvolvimento aqui tem como principal inspiração a autonomia de gestão que os povos originários Mapuche, do Chile, alcançaram nos espaços costeiros e marinhos. “Movemos o intercâmbio e nas oficinas de gestão costeira e marinha já trabalhamos a rede nacional e internacional, integramos os projetos associados, dialogamos com instituições, e na Frente Sudeste estamos experienciando os polígonos agregando inclusive as práticas do Projeto Povos”.
Cultura e sociobiodiversidade
Na sala da Justiça Socioambiental a recepção acolhedora marcou a dinâmica. O ambiente aconchegante combinava com o cenário na performance preparada para emocionar quem convive com as belezas e os conflitos no dia a dia dos territórios tradicionais. As áreas de atuação cultura e patrimônio, defesa do território, gestão de riscos e desastres e saúde integral de povos e comunidades tradicionais foram elucidadas em uma performance que mereceu todos os aplausos.
Posicionadas sobre um tapete imenso, símbolo da geografia das regiões no RJ e SP, as pessoas eram surpreendidas pelo autoritarismo: a História narrada pela interposição de rodovias, navios petroleiros, unidades de conservação, especulação imobiliária, cerceamento de liberdade e uma usina nuclear causou comoção. Para Juliana Antonia, educadora do Projeto Redes, há muita contribuição por meio do OTSS para a saúde dos povos e comunidades tradicionais. “Saúde é território, nossas práticas tradicionais, saúde vai além do corpo adoecido. Diante de todas as violações que presenciamos, que vivenciamos, violações sobre nossas práticas populares, queremos discutir a dimensão na saúde que não é levada em conta nas condicionantes, especialmente a saúde mental, que ainda não está prevista nos estudos de impactos”. Outra questão levantada foi as políticas que visam proteger os conhecimentos”. “Sofremos com o extrativismo do conhecimento, inviabilizando nossos saberes sobre a sociobiodiversidade. Como podemos realizar a proteção intelectual dos nossos conhecimentos?”, questionou Juliana.
Paulo Leonardo Martins, assessor da Coordenação de Justiça Socioambiental, acredita que um dos principais entraves é as pessoas entenderem os direitos e como podem garanti-los, utilizando por exemplo estratégias de regularização fundiária e construção de redes de incidência nos espaços de participação e de decisão, como os Conselhos Municipais de Cultura, de Educação. “A assessoria jurídica do OTSS presta apoio técnico para debater a expropriação dos territórios, a criminalização de práticas ancestrais com a chegada das unidades de preservação”. Assim a salvaguarda dos modos de ser e fazer de comunitárias e comunitários vai ganhando dimensões legais.
O eixo temático da Economia Solidária está envolvido com a agroecologia, pesca artesanal, saneamento ecológico e o TBC. Outras frentes de luta imprescindíveis. Sílvio Nei Barreiro, pesquisador comunitário do OTSS, produziu o cenário para o Seminário com as referências do Quilombo do Campinho e criou uma maquete para elucidar o sistema de saneamento ecológico utilizado inclusive no Restaurante do Quilombo. “Água é a coisa mais importante para as nossas vidas. Nós nos preocupamos muito com o uso da água, mas pouco nos preocupamos com o destino final, o pós-uso. Desde muito cedo eu me relaciono com a água, tomando banho no rio, buscando água pra minha mãe e pro meu pai. E sempre investiguei a infraestrutura e o reuso da água”.
Afinal, como fazer o tratamento da parte sólida e da parte líquida nesse ciclo da água? O processo é criação coletiva e tecnologia social implementada por meio do OTSS. “Desenvolvemos um sistema para o saneamento ecológico em busca de reduzir a contaminação ambiental com biossistemas, tanques de evapotranspiração e núcleos de fertilidade, entre outros”, explicou Silvio.
Território e maretório
A campanha “A juçara é nossa” marcou o Seminário, seja pelo cantinho preparado com carinho para fotografias, seja pelo suco servido nas refeições. O cultivo da juçara precisa ser garantido para comunidades tradicionais, pois vem sofrendo ameaças pelos grandes empreendimentos. De acordo com Luciano Maciel Corbellini, biólogo assessor da Frente de Agroecologia/ITS, o que consumimos hoje de juçara, cupuaçu e araçá-boi, por exemplo, vem do que foi plantado há anos. “Observamos como houve uma forte conservação do bioma e repovoação das espécies, resultado da presença das pessoas em seus territórios”.

A agroecologia, a produção do pescado, o saneamento ecológico, os encontros, hospitalidade e os atrativos fazem parte dos serviços organizados e protagonizados por comunidades tradicionais, de forma coletiva, para o TBC. Sérgio Salvati, assessor em Turismo de Base Comunitária da Incubadora de Tecnologias Sociais do OTSS, ressaltou a articulação da Rede Nhandereko, que reúne diversas comunidades, empreendimentos coletivos, individuais e familiares de caiçaras, indígenas e quilombolas integrantes do FCT. “A palavra guarani Nhandereko significa o nosso jeito de ser, e o TBC atua para o resgate cultural, a permanência nos territórios, a geração de renda, promovendo a economia solidária”.
“Nossa economia solidária dialoga com a justiça socioambiental. Temos trabalhado para garantir que a pesca tradicional seja passada de geração para geração, temos o caso da rede boieira, rede de arrasto que foi proibida, e agora garantimos a salvaguarda. Pensamos os maretórios e os terrritórios de maneira integral”, Sidélia Silva, coordenadora da Incubadora de Tecnologias Sociais do OTSS.
Passado, presente, futuro
No eixo da Educação Emancipatória ouvimos a narração mencionando a trajetória com a educação ambiental crítica, educação diferenciada, formações acadêmicas e pesquisa e produção editorial.
Imponente no fundo da tenda, o símbolo do Tamarindo do Pouso da Cajaíba abraçou quem chegava para acompanhar as instalações. A homenagem à mestra Laura Santos reverbera o início dos debates sobre a educação diferenciada no ano de 2010, quando pessoas atuantes nos territórios começaram a construir uma bandeira comum aos povos.
Aline Tavares, coordenadora geral do Projeto Redes, acredita que o OTSS vem trabalhando com bastante ênfase na construção de uma educação ambiental crítica por meio da execução do Programa de Educação Ambiental (PEA), que pretende construir uma rede de formação socioambiental. “O diferencial é entender que o próprio território educa, por isso todos os processos saem da lógica de uma preocupação com os biomas físicos e naturais, entendendo que a defesa dos direitos das populações é imprescindível para construir um novo projeto partindo do fortalecimento das organizações comunitárias”.
“Nós temos casos icônicos de resistência em São Gonçalo, Trindade, Peruíbe, e outros diversos territórios tradicionais. Como os grandes empreendimentos destroem as comunidades tradicionais, como combatemos o racismo ambiental? Como os processos dos colonizadores são marcados pela violência e como nós precisamos lutar pela nossa permanência dos territórios, marcados pelo desenvolvimentismo e novas estratégias de ocupação das nossas comunidades”, Paula Callegario.
Além de colaboradores da Fiocruz e do FCT, participaram do seminário parceiras e parceiros da Coordenação Nacional de Comunidades Negras e Rurais Quilombolas (CONAQ), Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras (CNCTC), Fórum de PCTs do Vale do Ribeira, UFF/IEAR, UFRJ, Unesp, Unicamp, Colégio Pedro II, Ong Verde Cidadania, Ong Serrapilheira, Embrapa Solos, Petrobras, Fundação Florestal, Ministério da Igualdade Racial, Ministério Público, Defensorias Públicas de São Paulo e Rio de Janeiro e Iphan.
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Reportagem: Débora Nobre Monteiro



















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