O futuro é ancestral e feminino: mais mulheres nas coordenações do OTSS
- Juliana Vilas
- há 21 horas
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Marcela Cananea, na Coordenação Geral, e Patrícia Silva, na Justiça Socioambiental, unem saberes tradicionais e rigor técnico para enfrentar as pressões externas e colocar as comunidades e povos tradicionais no centro das políticas públicas.

Na primeira semana de março, duas grandes referências na luta pela salvaguarda territorial assumiram novas posições de liderança no OTSS –parceria entre a Vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz (VPAAPS) e o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT).
A líder caiçara Patrícia Silva, da Vila de Picinguaba, em Ubatuba (SP), assume a Coordenação de Justiça Socioambiental. Ocupa o lugar que, por sete anos, foi de Marcela Cananea, nascida e formada na Praia do Sono, em Paraty (RJ), que agora é Coordenadora-Geral do OTSS e do FCT.
Essa ascensão dupla consolida a visão política em que a defesa do território tradicional é orientada por mulheres competentes que lutam para que o desenvolvimento das comunidades seja, de fato, justo e inclusivo.

Marcela Cananea: das tecnologias sociais aos fóruns globais
A trajetória de Marcela Cananea rumo à Coordenação Geral do OTSS coroa uma dedicação de sete anos estruturando a equipe de Justiça Socioambiental, que começou pequena e hoje conta com 27 pessoas dedicadas à defesa do território, da cultura e do patrimônio ancestrais. Marcela personifica a transição da liderança comunitária de base para a atuação técnica e política internacional.
No Conselho Consultivo da APA de Cairuçu (CONAPA), Marcela tornou-se uma voz incisiva contra a criminalização de práticas tradicionais, em defesa da pesca artesanal. Além disso, levou as pautas das comunidades tradicionais do Rio e SP para o mundo. Participa de fóruns internacionais e eventos nacionais, articula a aplicação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 nos territórios, combatendo a "colonialidade" nas políticas de conservação e reafirmando os povos tradicionais como os verdadeiros guardiões da biodiversidade.
Patrícia Silva: educação como base da resiliência comunitária
Com uma base de atuação profundamente enraizada no fortalecimento das estruturas internas da comunidade, Patrícia Silva assume a Coordenação de Justiça Socioambiental trazendo a educação como principal pilar de resistência. Patrícia acredita que: a comunidade que conhece seus direitos e sua história é muito mais resiliente a pressões de deslocamento.
Em Picinguaba, sua liderança brilhou na coordenação do Projeto Maré Alta, na Escola Municipal Prof. Iberê Ananias Pimentel. O projeto defende a educação construída a partir da realidade local, valorizando o patrimônio cultural imaterial caiçara.
Patrícia também atua na linha de frente da resistência institucional como titular no Conselho Consultivo do Núcleo Picinguaba do Parque Estadual da Serra do Mar (PESM), monitorando de perto os planos de manejo para garantir o respeito às comunidades. Além disso, atuou no Projeto Povos, trabalhando na caracterização detalhada dos territórios –que ela descreve como o “resguardo do movimento”, essencial para a proteção jurídica e a regularização fundiária.
Sinergia Feminina e Luta Coletiva
A atuação de Marcela e Patrícia carrega a visão integrada de território –que inclui comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras– e traz para o centro do debate a saúde, o saneamento, a educação, a juventude e a proteção contra a especulação imobiliária e o turismo predatório. O OTSS inicia agora um novo ciclo, fortalecido pela sabedoria ancestral, pela qualificação técnica e, sobretudo, pela força das mulheres que não abrem mão da construção coletiva do "Bem-Viver".
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Texto: Juliana Vilas | Fotos: Vinícius Carvalho

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