Cooperação entre Fiocruz e Embrapa fortalece comunidades na promoção da saúde e da agroecologia



"A poupança do pobre é a roça, não é o dinheiro no banco não. É a alimentação na boca de nossas crianças, guardando nossas sementes tradicionais para as futuras gerações, e assim vai, porque a poupança do nosso povo tradicional é a comida no chão, a comida na mesa." E não é qualquer alimentação: respeitando e preservando “o tempo” e “o jeito” da mata, Ana Cláudia Martins, a Cadinha, e outras famílias têm colhido frutos abundantes e cheios de saúde no Quilombo do Campinho da Independência, em Paraty (RJ). “Banana, aipim, taioba, inhame, limão, cambuci e vai vindo fruta que a gente plantou. São tantas frutas, tantas espécies, que eu nem lembro quantidade…”, ela conta.


Buscando conhecer e fortalecer experiências como as de Cadinha, integrantes da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS), do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS) e da Embrapa Agrobiologia realizaram, entre os dias 10 e 12 de março, três dias de visitas sociotécnicas no território da Bocaina, envolvendo as comunidades do Quilombo do Campinho e da Aldeia Araponga, em Paraty, e do Quilombo da Fazenda, em Ubatuba (SP).


A atividade integra o Projeto Ará, que no território da Bocaina vai mobilizar diretamente 19 comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras, a fim de fortalecer a agroecologia, o turismo de base comunitária (TBC) e a economia solidária, além de estimular os processos de gestão de empreendimentos coletivos. Partindo de uma escuta ativa das comunidades, as equipes das organizações estão colhendo subsídios para o acordo de cooperação técnica (ACT) a ser firmado com a Embrapa Agrobiologia e Agroindústria de Alimentos, avançando na construção de respostas para as demandas específicas dos territórios, por meio da elaboração de planos de trabalhos coerentes com a realidade de cada lugar.


A coordenadora da incubadora de tecnologias sociais do OTSS, Sidélia Silva, contextualiza que as roças visitadas estão em diferentes estágios de desenvolvimento e acompanhamento, e que as vivências permitem identificar possíveis gargalos no manejo ou no plantio nos roçados, bem como favorecem o intercâmbio de saberes entre as comunidades. “É a primeira vez que representantes da Aldeia Araponga vieram conhecer o Quilombo da Fazenda e a visita deles já gerou uma grande potência com relação ao roçado frutífero das agroflorestas, porque o plantio é de outra maneira. Integrando, a gente abre uma série de possibilidades de trabalho”, avalia. A engenheira florestal e pesquisadora da Embrapa Agrobiologia, Eliane Maria Ribeiro, ressalta a relevância do envolvimento da organização na atividade e da construção junto às comunidades: “Para nós, foi muito importante a participação pelas trocas que tivemos durante esses dias. Não só pelas discussões dos agroecossistemas de produção alimentar, economia local e o turismo de base comunitária, mas também por perceber toda a pedagogia dos encontros. O projeto Ará cumpriu o que se propôs com a reunião, que é estarmos juntos com as comunidades”, pontua.


Território: ponto de partida para a saúde e para a agroecologia


Primeiro quilombo titulado na história do estado do Rio de Janeiro, o Campinho foi constituído com protagonismo das mulheres. Ainda na década de 1990, foram também elas as pioneiras na implementação da agroecologia no território, quando ainda havia forte resistência e desconfiança dos homens da comunidade, como explicaram Ana Claudia Martins e a mãe Adilsa Conceição Martins, e Cirlene Barreiros Martins, conhecida como Aninha, lideranças do quilombo e guias da visita a uma das roças agroecológicas locais.


Tendo em mãos facão, peneira e semente de milho roxo típico da comunidade, Aninha apresentou a roça que mantém com a família e que é uma das principais áreas produtivas que abastecem o restaurante do Quilombo. Ela contou sobre o processo da agrofloresta que se deu no início dos anos 2000, no encontro entre os saberes tradicionais e científicos, em uma parceria com a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Embrapa Agrobiologia, o Instituto de Desenvolvimento e Ação Comunitária (Idaco) e o Conselho das Associações de Moradores de Paraty (Comamp). No começo, os mais velhos acharam estranha a mudança para a agroecologia e a adaptação de técnicas antigas que, de forma não intencional, prejudicavam a continuidade da produção na terra.


Com o avanço exitoso das experimentações e observações desenvolvidas de forma solidária e em mutirão sobretudo pelas mulheres, o plantio consorciado na agrofloresta foi ganhando lugar na comunidade. À tradicional lavoura branca praticada há mais de sete gerações (milho, feijão e mandioca), foi agregado o cultivo de madeira, espécies frutíferas, hortaliças e também o palmito pupunha, que veio ocupar espaço central na alimentação e contribuir na preservação e valorização da palmeira juçara, ameaçada de extinção, e que atualmente é manejada para a obtenção da polpa. Hoje, toda esta diversidade não só garante a segurança alimentar das famílias, como também abastece o Restaurante do Quilombo do Campinho e fomenta a geração de renda, por meio do acesso ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).


Já na Aldeia Araponga, segunda comunidade visitada, a alimentação é voltada para o sustento da comunidade e a realidade da produção para a comercialização está mais distante, tendo em vista os problemas da estrada e o afastamento de órgãos públicos, o que dificulta o acesso ao saneamento básico, à agroecologia e infraestrutura. A geração de renda acontece principalmente a partir do protagonismo das mulheres artesãs, que produzem e vendem artes que carregam sabedorias passadas de geração a geração.


Forte expressão da cultura local, o Coral Indígena Guarani, coordenado pelo vice-cacique, Nino Weratium, deu as boas-vindas ao grupo, seguido da recepção do cacique Seu Augustinho da Silva, Kara’i Tataendy Oka, de 102 anos, que descontraído cobrou: “Nós queremos aumentar a produção de frutas para a comunidade, ter um açude para poder pescar, um galinheiro para ter frango para comer. Se vocês estão aqui e vão fazer um bom trabalho, daqui três anos quero ver os resultados”.


Exercitando protagonismo na apresentação da aldeia, os jovens Marcio da Silva e Junior Kuaray conduziram o grupo pelo roçado de árvores frutíferas e plantas medicinais, como o fumo, erva muito usada nos rituais indígenas. Na casa de rezas, foi apresentada a cultura mais importante para a comunidade: o milho guarani.


Diferente do milho quilombola, ele é plantado misturando sementes de diferentes cores, por isso, as espigas são multicoloridas: brancas, pretas, vermelhas, amarelas... O grão guarani ganha força nas ritualidades da aldeia, sendo celebrados pela comunidade acontecimentos como o plantio e colheita do milho e o nascimento de crianças. Outra dessas tradições é o batizado do milho, que acontece em junho e é aberto para os juruás [não indígenas] acompanharem.

Na sequência, o terceiro território visitado pelo grupo foi o Quilombo da Fazenda, que se situa no Parque Estadual de Picinguaba, em Ubatuba (SP), e vivencia um processo histórico de conflito que restringe o usufruto da terra, até então preservada pela comunidade tradicional.


Nascido na Fazenda, o jovem Guilherme Braga apresentou a horta do seu Tio Cirilo, a primeira em agrofloresta da comunidade. Cambuci, araçá, pupunha, banana são algumas das culturas cultivadas na terra, além da mandioca, reverenciada pelos quilombolas na técnica tradicional de feitura de farinha, transmitida até hoje para os mais novos. Os pomares antigos de frutas encantaram a todas/os e fizeram brilhar, principalmente, os olhos dos jovens guaranis da Aldeia Araponga, que visitaram pela primeira vez o Quilombo vizinho.



O Quilombo também tem uma trajetória maior de desenvolvimento da agroecologia e do turismo de base comunitária e hoje enfrenta como principais desafios a falta de autonomia no uso do território, a necessidade de ampliar os roçados e estruturar a visitação ao restaurante e às demais rotas do TBC. “As práticas tradicionais muitas vezes são criminalizadas, às vezes, mesmo por instituições que deveriam estar ali para fortalecer a comunidade e, ao contrário disso, acabam prejudicando, não deixando a comunidade fazer as suas práticas tradicionais do uso da coivara, do plantio da lavoura branca, mandioca, milho, feijão”, pondera Guilherme.

Liderança do Quilombo da Fazenda e tia de Guilherme, dona Laura Braga narrou, durante o preparo do jantar, a história de resistência da comunidade após a instalação do parque e da BR 101. Hoje, ela celebra a conquista do restaurante da comunidade próximo à praia, que gera renda e fortalece os hábitos alimentares locais, mas ressalta que ainda há muito caminho a percorrer no que tange à produção da comunidade.


“A praia fica cheia, mas muitas vezes o restaurante está vazio. Graças ao edital do Fundo Baobá, conseguimos recursos de forma própria para qualificar as cozinhas, mas ainda há muito o que ser feito para que exista autonomia e renda a partir do restaurante. Precisamos de maior comunicação do que fazemos aqui, porque a qualidade da comida, garantimos!”, afirma Laura, que é reconhecida regionalmente por seu cuidado e dedicação com a cultura alimentar quilombola.


Casas vivas de sementes, mudas e memórias


Além de toda a riqueza dos relatos, das manifestações culturais e da alimentação agroecológica experimentada ao longo dos dias, as e os participantes também realizaram troca de mudas e sementes. Após a visita, os jovens guarani, por exemplo, levaram para a Aldeia Araponga espiga do milho de palha roxa do roçado do Quilombo da Fazenda, variedade que, por sua vez, havia sido adquirida em outra ocasião em uma troca com o Quilombo do Campinho. A conservação da agrobiodiversidade pelas guardiãs e guardiões, que tanto promove a saúde e sustentabilidade dos territórios é, assim, partilhada e multiplicada, favorecendo a autonomia das comunidades.


As pesquisadoras da Embrapa Agrobiologia apontam que, em um primeiro momento, a casa ou o banco de sementes pode não existir fisicamente. O próprio mapeamento de pessoas que são guardiãs e a organização dessas informações em cada comunidade já representa um passo muito importante, ainda que os espaços coletivos de acesso e armazenamento sejam fundamentais. Os próprios espaços dos restaurantes, no caso dos quilombos, e da casa de reza, na aldeia, podem ser ambientes a ser estruturados, respeitando as dinâmicas locais, para armazenarem mais e melhor as sementes, mudas e demais patrimônios genéticos das comunidades.


Economia Solidária e Agroecologia no fortalecimento do território


“Neste território, a economia solidária já acontece de muitas formas, desde sempre. As estratégias de cuidado, troca de alimentos e serviços, os mutirões para a construção de casas e roças, além dos momentos de celebração são práticas que hoje chamamos de solidária, mas que fazemos há muito tempo como forma de vida e resistência”, afirma Ariane Rosa Martins, liderança do Quilombo do Campinho e uma das coordenadoras da frente de Economia Solidária no OTSS/FCT.


Para ela, concretizar circuitos de economia solidária é uma das prioridades do Projeto Ará no território. Executar planos de comunicação dos restaurantes e dos roteiros de TBC, fortalecer os grupos produtivos para acessarem políticas públicas, feiras e o mercado de alimentos regional e local, fortalecendo identificar estratégias pós-colheita em parceria com a Embrapa Alimentos, são exemplos dos caminhos que podem ser trilhados nos próximos meses.


Próximos passos


As equipes da VPAAPS e Embrapa também visitarão comunidades na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em conjunto com membros da Fiocruz Mata Atlântica, e em Petrópolis, com membros do Fórum Itaboraí. A partir do diagnóstico construído com os territórios, serão elaborados e executados os planos de trabalhos locais fortalecendo a parceria com a Embrapa.


A preparação e realização de uma atividade dessa complexidade nos faz superar desafios que foram ampliados com os entraves colocados pela pandemia. Perceber a evolução das práticas agroecológicas nos territórios da Costa Verde ao longo desses vinte anos, tanto no que se refere à adoção e apropriação de tecnologias agroecológicas quanto no que se refere aos processos de resistência e protagonismo das mulheres e da juventude, é exemplo de que cada território e comunidade têm diferentes tempos e percepções da agroecologia, sem contudo abrir mão de suas identidades e modos de vida, que são verdadeiros exemplos da relação harmônica sociedade e natureza”, avalia Claudemar Mattos, da equipe da Agenda de Saúde e Agroecologia da Fiocruz.


Textos: Marina D. de Souza, Angélica Almeida e Natália Almeida


Fotos: Eduardo Napoli e Marina D. de Souza

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