Festival Territórios Vivos: comunidades tradicionais ocupam o Centro Histórico de Paraty com cultura, sociobiodiversidade e resistência
- Vinícius Carvalho
- há 3 dias
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Atividades ocorrem entre 27 e 29 de abril como parte da 4ª Caravana do Bem Viver, realizada pelo Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) e pela Fiocruz por meio do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS).

Em um ato de afirmação cultural e territorial, o Festival Territórios Vivos ocupa o Centro Histórico de Paraty entre os dias 27 e 29 de abril. Organizado pelo Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) como parte da Campanha Territórios Vivos, o evento promove a ocupação coletiva do centro da cidade pelas populações indígenas, caiçaras e quilombolas.
“É muito simbólico que o Festival ocorra no centro histórico de Paraty, parte do Sítio Misto do Patrimônio Mundial da UNESCO que foi construído com muito trabalho e suor pelos ancestrais dos povos e comunidades tradicionais que resistem nesse território. Porque o patrimônio não está só nas pedras ou na paisagem — ele está nas pessoas, nos saberes e na vida que acontece aqui. Não existe patrimônio sem nós”, afirma Marcela Cananea, integrante do Colegiado de Coordenação do FCT e Coordenadora-geral do OTSS.
Aberto ao público, o Festival transforma a Praça da Matriz em território de diálogo, celebração e transmissão geracional de saberes. Com foco em sociobiodiversidade, diversidade de gênero e resistência territorial, o evento reforça também a presença viva das comunidades em um espaço historicamente elitizado pelo turismo de massa.
A abertura oficial do Festival ocorre na Praça da Matriz no dia 27/04, segunda, às 19h. Celebrando o Abril Indígena, o ato comemora os 20 anos da Comissão Guarani Yvyrupá (CGY) e suas lutas em defesa dos territórios indígenas. FCT e CGY assinam também um termo de cooperação entre os movimentos, seguido do lançamento do livro “Gramática da Língua Guarani Mbya e Estratégias de Ensino-Aprendizagem”, construção coletiva para valorizar a língua Guarani Mbya e o bilinguismo em escolas de territórios indígenas.
E em seguida, das 20h às 22h, teremos apresentações de Realidade Negra - primeiro grupo de rap quilombola do Brasil - e da Roda de Samba do Quilombo do Campinho, trazendo a força quilombola para a Praça da Matriz.
Feira, Oficinas e Shows na Praça da Matriz
A programação começa com a Raiz Ancestral: Feira da Sociobiodiversidade, montada diariamente das 9h às 18h na Praça da Matriz, de 27 a 29 de abril. Parte da Campanha Territórios Vivos do FCT, a feira surge do encontro entre território, memória e cuidado. Sua missão é salvaguardar e fortalecer os saberes ancestrais dos povos indígenas e comunidades tradicionais caiçaras e quilombolas, guardiãs de uma relação profunda entre cultura, natureza e modos de vida. Visitantes poderão encontrar produtos da sociobiodiversidade e artesanato, promovendo geração de renda e preservação ambiental.
No dia 27 de abril, das 16h às 18h, o Núcleo Jovem do FCT promove também a Oficina de Trança, Samba e Poesia. Essa atividade cultural e formativa aproxima juventudes das periferias urbanas e territórios tradicionais por meio da arte como ferramenta de resistência. A trança representa a estética identitária, a poesia surge da criatividade jovem, e o samba traz a musicalidade ancestral – um diálogo vivo sobre identidade e geração de renda.
A diversidade ganha ainda mais destaque no dia 28 de abril. Às 20h, a Parada LGBTQIAPN+ "A Gente Não Se Esconde Mais: Cria do Território" celebra visibilidade, orgulho e luta por direitos, com expressão coletiva das crias do território. Em seguida, das 21h às 23h, a Festa Arco-Íris "Na Batida da Ancestralidade" agita a praça com o set do DJ Kost, caiçara de Ilhabela. O repertório de músicas afro-brasileiras promove celebração da diversidade, ancestralidade e fortalecimento coletivo sob as luzes do arco-íris.
No encerramento, dia 29 de abril, duas rodas de conversa marcam o debate: das 9h às 11h30, a Roda de Conversa: Artes da Pesca Artesanal reúne dinâmicas como Teatro do Oprimido, debates com juventude e apresentações de petrechos tradicionais. O foco está nos saberes pesqueiros – clima, ciclos dos peixes, modos de produção e festividades –, fortalecendo a transmissão cultural e a conexão entre cultura e território.
E das 10h às 12h, a Frente Arco-Íris do FCT realiza "Vozes da Diversidade: Roda de Vivências", um espaço aberto para trocas de experiências, histórias e acolhimento nas comunidades.
Casa Cozinha das Tradições: Do Plantio ao Prato com a Juçara
Na Casa Cozinha das Tradições (Rua Fresca, 251), o festival mergulha na gastronomia ancestral. No dia 28 de abril, das 09h às 15h, a Oficina 'A Juçara é Nossa': Polpas, Sementes e Mudas convida o público a aprender o manejo prático da juçara, palmeira símbolo da sociobiodiversidade manejada pelos povos e comunidades tradicionais da Mata Atlântica.
Também no 28 de abril, das 16h às 18h, a Aula Show da Cozinha das Tradições: Do Plantio ao Prato completa a programação. Guiada por mestras da gastronomia tradicional, a atividade prepara receitas com juçara como protagonista, unindo ingredientes da terra e do mar. "Vamos do plantio ao prato, honrando a sabedoria dos nossos ancestrais", convida o coletivo.
Campanha Territórios Vivos
Lançada pelo Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), a Campanha Territórios Vivos propõe quatro linhas de ação: Trocas e transmissão intergeracional de saberes e fazeres; Diálogo e articulação de políticas públicas culturais; Formação e capacitação em saberes e fazeres da economia da cultura; e Produção de atividades de visibilidade das culturas tradicionais.
Na primeira linha de ação, a Campanha tem, entre outros objetivos, a realização de rodas de diálogo, troca e transmissão de saberes e fazeres com participação de mestras e mestres e das juventudes comunitárias, o reconhecimento dos mestres e mestras com a entrega de certificados de notório saber, a construção do Calendário das Culturas Tradicionais e ações diretas de defesa de espaços culturais e históricos dos nossos territórios, como ranchos, roças, casas de farinha e casas de reza.
Na segunda linha de ação, dedicada às políticas públicas, a campanha prevê a realização de um diagnóstico das políticas públicas e orçamentos de cultura dos municípios onde atuamos, a ampliação da participação do FCT em conselhos municipais e conferências de cultura, e o diálogo com órgãos de proteção do patrimônio sobre a salvaguarda do patrimônio material e imaterial das comunidades, incluindo a área de abrangência do sítio misto do patrimônio mundial da UNESCO em Paraty e Ilha Grande.
Já na terceira linha de ação, dedicada à formação, a campanha prevê atividades formativas em produção cultural, políticas públicas e legislação na área da cultura e a realização de intercâmbios entre as comunidades e com comunidades fora do território para troca de saberes. Por fim, o quarto eixo de ação da Campanha, dedicado à visibilidade, prevê a organização de atividades de diálogo nas periferias das cidades, a promoção de lançamentos e atos políticos e a realização de festivais culturais nas cidades onde o movimento atua.
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