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Território vira sala de aula: em Trindade, saberes ancestrais abrem caminhos para o futuro no TBC

  • Foto do escritor: Caroline Nunes
    Caroline Nunes
  • há 1 hora
  • 5 min de leitura

Primeiro Tempo-Escola do Curso de Formação Inicial em Turismo de Base Comunitária reúne comunidades tradicionais, educadores e movimentos sociais em uma experiência que transforma aprendizado em resistência e pertencimento

Primeiro Tempo-Escola do Curso de TBC reúne comunidades tradicionais, educadores e movimentos sociais em uma experiência que transforma aprendizado em resistência e pertencimento.
Créditos: OTSS

O som do mar em Trindade (Paraty/RJ) não foi apenas pano de fundo — foi também linguagem. Entre redes estendidas, barcos ancorados e histórias que atravessam gerações, ocorreu o 1º Tempo-Escola do Curso de Formação Inicial em Turismo de Base Comunitária (TBC) — Turma Paraty (RJ). 


Mais do que uma abertura formal, o encontro marcou o começo de uma travessia coletiva: uma formação que nasce do território, retorna a ele e se compromete com sua continuidade.


A atividade reuniu cerca de 50 cursistas de diferentes povos e comunidades tradicionais e articula o Núcleo de TBC da Incubadora de Tecnologias Sociais (ITS/OTSS), a Rede Nhandereko de TBC do Fórum de Comunidades Tradicionais, o Núcleo de Educação Diferenciada da Gestão de Saberes (OTSS),  o Colégio Pedro II e a Instituto de Educação de Angra dos Reis (IEAR) da Universidade Federal Fluminense (UFF) — uma confluência de caminhos que, ao se encontrarem, revelam que educação e território não são dimensões separadas, mas expressões de uma mesma luta.


Entre instituições e territórios: quando ensinar é também aprender


O professor Wagner Trindade, do Colégio Pedro II e do referido curso, sintetiza o espírito do curso ao romper com a lógica tradicional da educação verticalizada. 


“Mais do que ensinar, a gente quer aprender junto com vocês. A gente respeita muito o espaço que a gente está. É uma temporada de ensino, mas também de muita aprendizagem”, salienta o educador.


A presença do Colégio Pedro II, instituição fundada em 1837, carrega, nesse contexto, um significado que vai além da certificação. É o encontro entre uma tradição institucional e saberes historicamente invisibilizados, agora colocados no centro do processo formativo. 


Ao se inserir na educação diferenciada, a escola amplia seu papel e reconhece que há conhecimentos que não cabem apenas nos livros, mas vivem nas práticas, nas memórias e nos modos de vida das comunidades, de acordo com o docente.

A proposta pedagógica do curso acompanha essa perspectiva. Inspirada na Pedagogia da Alternância e na Educação Popular, a formação conecta teoria e prática, território e reflexão crítica. Os conteúdos percorrem temas como história dos movimentos sociais, economia solidária, elaboração de roteiros e, sobretudo, formação política — entendendo o TBC não como produto, mas como ferramenta de luta.


“Turismo de Base Comunitária é uma ferramenta de educação, é uma ferramenta política. E a Educação Diferenciada também é. A gente está realizando um sonho coletivo, uma conquista construída a muitas mãos”, explica a assessora de TBC do OTSS, Julia Martins, uma das articuladoras do curso.


Esse sonho também se insere em um contexto mais amplo de disputas por território, reconhecimento e direitos. Para Daniela Elias, uma das coordenadoras da Rede Nhandereko, formar sujeitos críticos e fortalecer lideranças comunitárias é estratégico.


“A gente não trabalha só o turismo de receber grupo. Existe um processo de formação política, de entender o lugar que a gente ocupa. O TBC também está a serviço disso: de defender o território”.


Segundo ela, entre falas, encontros e partilhas, o curso vai se desenhando não apenas como uma formação, mas como um movimento, “um gesto coletivo de afirmação da vida nos territórios”.

Vozes do território: memória, juventude e a continuidade da vida comunitária


Mas é nas vozes de quem vive o território que o sentido mais profundo dessa experiência se revela. Em Trindade, cada relato carrega mais do que palavras: carrega história, luta e continuidade.


Educadora e militante, Viviane Remédios fala com emoção sobre o que vê acontecer ali. Para ela, a união entre TBC e educação diferenciada não é novidade — é necessidade. 


“O TBC tem tudo a ver com a educação diferenciada porque envolve as crianças, os jovens. Eles crescem vendo isso, aprendendo isso. E assim a cultura não morre, ela continua, de geração em geração”, enfatiza.


Enquanto fala, o cenário ao redor parece confirmar suas palavras. Redes espalhadas pelos quintais, barcos prontos para o mar, o vai e vem da comunidade — tudo revela que o turismo ali não é espetáculo, mas extensão da vida. 


“O TBC está aqui. A raiz das comunidades continua e se expande. E é isso que importa”, destaca Viviane.

Nascida e criada em Trindade, Maressa Carmo Belchior também carrega no corpo e na memória as marcas dessa resistência. Filha e neta de quem enfrentou a expulsão e reconstruiu casas derrubadas, ela vê no curso uma continuidade dessa luta.


“O TBC sempre será o nosso diferencial. É a nossa cultura sendo valorizada. Quando vem o turismo de massa, ele desvaloriza quem a gente é. O TBC não. Aqui a gente se fortalece”, salienta a caiçara.


O olhar de Maressa também se volta para o futuro — especialmente para a juventude. 


“A gente precisa chamar os mais novos, trazer eles pra perto. Não pode deixar morrer. A cultura é viva, é o território, é a nossa vivência”.


Saberes que atravessam territórios e constroem futuros


De outros territórios chegam vozes que ampliam esse coro coletivo. Marli do Nascimento Machado, do bairro Mangueira, em Paraty (RJ), enxerga no curso a possibilidade de reativar economias locais e ressignificar espaços historicamente marginalizados. 


“A gente precisa valorizar o lugar onde mora, desenvolver a cultura, gerar renda ali. Se a gente não ocupa, outros ocupam”, reflete.

Já Mianga Pataxó, indígena em circulação que está alocada atualmente na Aldeia Pataxó de Paraty, integra o curso como parte de uma jornada de troca de saberes: aprender, para depois retornar e fortalecer sua comunidade. 


“Quando a gente sai, é pra aprender e levar de volta. E aqui eu vejo que existem caminhos. A gente pode ajudar o mundo com os nossos saberes”, avalia a indígena.


“Força”


Entre diferentes histórias, há um fio condutor comum: a compreensão de que o conhecimento não é algo que se acumula individualmente, mas que se constrói coletivamente e retorna ao território como ferramenta de transformação.


Ao final, quando convidada a resumir o que aquele momento significava, Viviane não hesita em dizer: “Força”.


“A força dos nossos ancestrais, que lutaram pra gente estar aqui hoje. É isso que a gente carrega e é por isso que a gente continua”.

Após a turma de Paraty, o curso irá se expandir para outros territórios, como Angra dos Reis e Mangaratiba. Mas o que começou em Trindade já deixa marcas profundas.


Ali, entre o mar e a memória, ficou evidente que ensinar e aprender, nesses contextos, não são ações separadas. São movimentos que se entrelaçam, como redes — redes de pesca, redes de cuidado, redes de resistência. E, sobretudo, redes de futuro.


Por Caroline Nunes


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