TBC em movimento: novos roteiros comunitários fortalecem o “nosso jeito de ser” na Rede Nhandereko
- Caroline Nunes

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“Existe um entendimento coletivo de que o TBC é uma ferramenta política de luta pela defesa e permanência dos povos e comunidades tradicionais em seus territórios, e isso é o que une todas elas dentro da Rede Nhandereko”, ressalta a assessora Júlia Martins

Com a consolidação da Central de Turismo de Base Comunitária (TBC) e a chegada de cinco novos roteiros em 2026, a Rede Nhandereko — braço forte do Fórum de Comunidades Tradicionais — amplia sua atuação e reafirma o TBC como uma ferramenta de autonomia, geração de renda e defesa dos territórios tradicionais no Litoral Norte paulista e Sul Fluminense.
Reunindo comunidades caiçaras, indígenas e quilombolas de Ubatuba, Paraty e Angra dos Reis, a iniciativa fortalece processos formativos, a economia solidária e a gestão comunitária do turismo, colocando no centro a cultura, os saberes ancestrais e a luta pelo território.
Dados oficiais indicam que o TBC, apesar de ainda ser uma modalidade relativamente pouco expressiva nos números nacionais em comparação com o turismo tradicional, tem ganhado reconhecimento e estruturação ao longo das últimas décadas.
Relatórios do Ministério do Turismo apontam que, em levantamentos oficiais recentes, existem cerca de 40 iniciativas de TBC distribuídas pelo território brasileiro, com maior concentração na região Sudeste, seguida pelo Nordeste, Sul, Norte e Centro-Oeste, o que reflete a diversidade territorial desse modelo de turismo que prioriza o protagonismo comunitário e a sustentabilidade local.
Em entrevista, a assessora de TBC da Rede Nhandereko (FCT), Júlia Martins — membro do núcleo de TBC da Incubadora de Tecnologias Sociais (ITS) do Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS) — fala sobre o significado dessa expansão, o protagonismo de mulheres e jovens, as novas experiências oferecidas pelos roteiros e o papel da Rede Nhandereko e de suas parcerias na construção de um turismo feito com respeito, troca e pertencimento.
OTSS: Júlia, olhando para a trajetória da Rede Nhandereko e da Central de TBC, o que a chegada de novos roteiros em 2026 representa para o momento atual do Turismo de Base Comunitária na região?
Júlia: A Central de TBC da Rede Nhandereko, vinculada ao Fórum de Comunidades Tradicionais, é a realização de um grande sonho da Rede. Um sonho construído ao longo de muitos anos de planejamento, organização e processos formativos para que esse momento fosse possível. A Central foi lançada em 2024 com cinco roteiros de Turismo de Base Comunitária de comunidades tradicionais dos municípios de Ubatuba e Paraty, e esse foi um marco muito importante, uma grande conquista para a Rede Nhandereko e para o movimento social.
A Central é mais uma ferramenta de autonomia e de gestão dos povos e comunidades tradicionais, pois possibilita maior divulgação dos roteiros, amplia as vendas, gera recursos, fomenta a economia solidária e fortalece a autonomia das comunidades, consolidando os coletivos de TBC. Em 2025, mais cinco roteiros foram lançados, totalizando hoje dez roteiros de comunidades indígenas, quilombolas e caiçaras dos municípios de Ubatuba, Paraty e Angra dos Reis.
A Central e a Rede desejam que cada vez mais roteiros e comunidades façam parte desse espaço, pois ela é um caminho importante para o fortalecimento do Turismo de Base Comunitária e das comunidades tradicionais. Ter hoje dez roteiros na Central representa um processo formativo do TBC que está dando certo e apresentando resultados concretos. As comunidades que chegam à Central são aquelas que já vêm, há algum tempo, fortalecendo a luta pela defesa do território junto à Rede Nhandereko e ao movimento social, compreendendo o TBC como uma ferramenta política para essa defesa.
Então, o TBC é entendido como algo que fortalece a organização comunitária, gera renda, envolve jovens e mulheres e reforça a coletividade. Ele representa a importância dos processos formativos, das trocas e das partilhas de saberes entre as comunidades, do apoio mútuo e do fortalecimento coletivo. Tudo isso torna esse momento muito positivo para o Turismo de Base Comunitária.
OTSS: Quais territórios e comunidades esses novos roteiros trazem para dentro da Rede e o que motivou essa ampliação para 2026?
Júlia: Os novos roteiros que passam a integrar a Rede [Nhandereko] são da Aldeia Rio Bonito, em Ubatuba, território indígena; do Quilombo de Santa Rita do Bracuí, em Angra dos Reis; da Enseada das Estrelas e Suas Raízes, na Ilha Grande, comunidade caiçara de Angra dos Reis; da Praia do Sono, em Paraty; e da Praia Grande da Cajaíba, também em Paraty, ambas comunidades caiçaras.
Essa ampliação é resultado de um processo contínuo de fortalecimento do TBC na região, do interesse das comunidades em construir seus roteiros de forma coletiva e do reconhecimento da Central como uma ferramenta importante de autonomia, geração de renda e defesa do território.
OTSS: Mesmo com histórias, estruturas e contextos diferentes, o que faz com que todos esses roteiros compartilhem o mesmo princípio do TBC e do Nhandereko, esse “nosso jeito de ser”?
Júlia: Todas as dez comunidades construíram seus roteiros de Turismo de Base Comunitária tendo como base os princípios da Rede Nhandereko. Todas participaram de muitas partilhas, trocas e vivências de TBC, conhecendo experiências de outras comunidades que já fazem parte da Central. Esses princípios sempre estiveram presentes na construção do TBC em cada território.
Isso demonstra a importância do movimento social, de uma comunidade fortalecer a outra, de compartilhar experiências e aprendizados. As partilhas e o diálogo foram fundamentais nesse processo. O que faz com que todas compartilhem os mesmos princípios é o entendimento de que a luta é comum e de que, quando as comunidades estão unidas, elas se tornam mais fortes para enfrentar os conflitos e desafios que afetam seus territórios.
Existe um entendimento coletivo de que o TBC é uma ferramenta política de luta pela defesa e permanência dos povos e comunidades tradicionais em seus territórios, e isso é o que une todas elas dentro da Rede [Nhandereko].
OTSS: Na prática, que tipo de vivências e experiências esses novos roteiros oferecem para quem busca um turismo mais próximo das comunidades e dos seus modos de vida?
Júlia: Os roteiros oferecem vivências nas roças, permitindo conhecer os alimentos cultivados e compreender a importância deles para o modo de vida das comunidades. Também há experiências como a pesca de cerco, a mariscagem e a contação de histórias de cada território, que trazem narrativas muito fortes, bonitas e cheias de memória.
Além disso, os visitantes podem participar de oficinas de arco e flecha, de artesanato e de outras práticas que fazem parte do cotidiano e da cultura das comunidades, promovendo uma troca verdadeira e respeitosa.
OTSS: As mulheres têm um papel central na gestão do TBC. Como o protagonismo feminino se expressa nos novos roteiros que chegam à Rede? E os jovens, como entram nessa história?
Júlia: O protagonismo feminino no Turismo de Base Comunitária é muito representativo e gratificante de ver. Na maioria dos coletivos de TBC, são as mulheres que estão à frente, trazendo consigo uma luta muito forte pela permanência no território com seus filhos e filhas. Elas reconhecem o TBC como uma ferramenta que permite trabalhar dentro do próprio território, algo extremamente importante para as comunidades.
Dos cinco novos roteiros que entraram na Central, muitos são representados por mulheres e jovens. São mulheres que participaram do curso de TBC da Rede de Formação Socioambiental Rede Pulsa Porã, em 2024, e que, no ano seguinte, viram suas comunidades ingressarem na Central. É muito bonito ver esse empoderamento feminino a partir dos processos formativos.
A juventude também está muito presente, demonstrando grande interesse no Turismo de Base Comunitária. Os jovens estão representando os coletivos de TBC dentro da Central e mostrando a importância de sua participação para envolver outros jovens, fortalecer as atividades comunitárias, o movimento social e os próprios coletivos. Esse envolvimento tem sido fundamental.
OTSS: Pensando na diversidade caiçara, indígena e quilombola da Rede, que novos saberes, práticas culturais ou modos de viver passam a ser compartilhados com os visitantes a partir de 2026?
Júlia: Com a chegada dos cinco novos roteiros, a Central passa a contar também com comunidades do município de Angra dos Reis, como a comunidade caiçara da Enseada das Estrelas e Suas Raízes, que oferece experiências com mariscagem, oficinas, vivências em cachoeiras e trilhas. Há também o Quilombo de Santa Rita do Bracuí, que proporciona vivências muito ricas e significativas.
Cada comunidade e cada roteiro são únicos, pois carregam histórias próprias do território, de luta e de saberes. Mesmo quando existem práticas culturais ou vivências semelhantes, cada comunidade tem sua forma específica de conduzir e transmitir esse conhecimento. São práticas muito especiais, que permitem aos visitantes aprender com o território, trocar e compartilhar saberes ligados à ancestralidade, à cultura e à sabedoria dos povos tradicionais.
OTSS: Qual tem sido o papel do Núcleo de TBC da Incubadora de Tecnologias Sociais do OTSS no apoio à construção e ao fortalecimento desses novos roteiros?
Júlia: O Núcleo de TBC da Incubadora atua desde a construção da ideia da Central e desde o seu lançamento. Atualmente, segue apoiando em questões importantes, como a elaboração do regimento interno da Central de TBC, os processos formativos, as partilhas, as trocas e as formações relacionadas à organização e elaboração dos roteiros.
Além disso, o Núcleo contribui no fortalecimento político do Turismo de Base Comunitária, apoiando articulações com outras comunidades e redes de TBC. Esse envolvimento contínuo tem sido fundamental para o fortalecimento da Central e dos roteiros.
OTSS: À medida que a Rede cresce, quais são os principais cuidados para garantir que a ampliação dos roteiros continue alinhada aos princípios do TBC, à luta pelo território e à proteção do meio ambiente?
Júlia: O objetivo da Rede Nhandereko e da Central é crescer cada vez mais, agregando novas comunidades, pois essa é uma ferramenta do movimento social voltada à autonomia e à geração de renda. No entanto, um dos principais cuidados é garantir que as comunidades que ingressam façam parte do movimento social e estejam alinhadas aos seus princípios.
Pertencer ao movimento [Fórum de Comunidades Tradicionais], defender o território, fortalecer os modos de vida, a cultura e a conservação ambiental são pilares fundamentais. O TBC envolve a agroecologia, o artesanato, a cultura, o cuidado com o território, o saneamento ecológico, a cozinha tradicional e a alimentação carregada de história, saber e memória. O cuidado principal é fortalecer cada vez mais essa ligação com o movimento social, que é essencial.
OTSS: Para finalizar, que convite a Rede Nhandereko faz ao público com esses novos roteiros? Que tipo de viajante vocês esperam receber e que tipo de troca desejam construir a partir do TBC?
Júlia: O convite é para pessoas interessadas em conhecer a história dos territórios dos povos e comunidades tradicionais do Litoral Norte Paulista e Sul Fluminense. A Rede Nhandereko recebe os visitantes com muito respeito, oferecendo roteiros maravilhosos para quem deseja aprender, ouvir, conhecer histórias e vivenciar experiências únicas.
Os roteiros de TBC possibilitam o contato com a sabedoria ancestral e oferecem oportunidades de transformação. As pessoas que vivenciam o Turismo de Base Comunitária costumam mudar o olhar, ampliar a compreensão sobre os territórios e acabar fortalecendo a luta pela defesa do território e do movimento social.
O turismo que a Rede acredita é aquele feito com respeito às pessoas e ao meio ambiente, de forma educativa. Os territórios não existem para receber visitantes indiscriminadamente, mas estão abertos a compartilhar, com cuidado e respeito, tudo aquilo que carregam ancestralmente. É esse tipo de visitante que o Turismo de Base Comunitária acolhe e fica feliz em receber.
Serviço
Para saber mais sobre todos os roteiros da Rede Nhandereko, contate a Central de Comercialização de TBC.
Cel: 24 992475959
E-mail: tbc.nhandereko@gmail.com
Rede Nhandereko: visite www.redenhandereko.org.br e @redenhandereko. Por Caroline Nunes



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