Projeto Povos realiza caracterização de comunidades tradicionais em contexto urbano no litoral sul do RJ e norte de SP
O trabalho realizado por pesquisadoras e pesquisadores comunitários e equipes do OTSS reúne documentação essencial sobre a realidade urbana em comunidades caiçaras de Mangaratiba e Ilha Grande (RJ) e em Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela (SP)
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As equipes do Projeto Povos trabalham desde o ano de 2019 para realizar a caracterização de comunidades tradicionais indígenas, caiçaras e quilombolas em territórios do litoral sul do Rio de Janeiro e do litoral norte de São Paulo. Desde 2025 a pesquisa é realizada em Mangaratiba e Ilha Grande (RJ) e em Caraguatatuba, São Sebastião e Ilhabela (SP), ampliando a visibilidade dos territórios tradicionais nos municípios impactados pelas atividades da cadeia produtiva de petróleo e gás na camada Pré-Sal da Bacia Santos.
O Projeto Povos atua com metodologias de pesquisa-ação sob os princípios da educação popular, da cartografia social insurgente, da pedagogia da autonomia e com a garantia do protagonismo dos movimentos sociais de base legitimados pelas populações tradicionais em cada território. O desenho dos mapas e a coleta dos dados que compõem a caracterização acontecem em um processo no qual as pessoas se conectam com suas identidades e ancestralidades, vivenciando a troca de saberes entre os mais velhos e os mais novos. Oficinas, visitas de campo para o reconhecimento dos territórios, grupos focais, rodas de cultura, partilhas temáticas e outras atividades promovidas pelo projeto buscam trazer à memória as histórias antigas, retomar práticas tradicionais e planejar o futuro com a garantia dos direitos territoriais, socioeconômicos e culturais das comunidades.
Márcia Malheiros, assessora do Povos, explica que a metodologia da cartografia social insurgente realizada de forma participativa com as comunidades tradicionais inclui mobilização comunitária, reuniões de planejamento e oficinas de cartografia social, nas quais são desenvolvidos instrumentos como mapa falado, análise coletiva de imagens de satélite e georreferenciamento participativo dos territórios. “Além das atividades de caracterização territorial, a fase de expansão do Povos incorporou novas ações, entre elas a realização de um encontro com professores de escolas públicas do sul do estado de São Paulo com o objetivo de apresentar os resultados e as publicações produzidas pelas comunidades tradicionais participantes da primeira fase do projeto”, afirma.
[GALERIA DE FOTOS: Registros dos trabalhos de cartografia e oficinas nas comunidades]
A formação de lideranças comunitárias como agentes autocartografantes é uma novidade importante, pois aprofunda processos de autonomia e protagonismo dos povos e comunidades tradicionais em suas lutas pela conquista de direitos.
O Intercâmbio de Aprendizagem, outra iniciativa realizada entre agosto e setembro de 2025, promoveu a visita de participantes e pesquisadores do Projeto Povos em comunidades tradicionais no Recôncavo Baiano e na Ilha de Maré, na Baía de Todos os Santos (Bahia), para compartilhar experiências e aprender com outras práticas de organização comunitária e defesa territorial.
Leia a reportagem completa:
As Rodas de Cultura, impulsionadas pela Campanha Territórios Vivos do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), também são destaque das articulações resultantes da mobilização comunitária que aproximam coletivos, associações e lideranças.
Outro aspecto relevante dessa fase de expansão é a atuação em comunidades tradicionais localizadas em áreas urbanas ou em contextos de intensa urbanização. De acordo com Márcia, a caracterização nesses locais apresenta desafios específicos, como a fragmentação dos territórios, conflitos de uso do solo e a dificuldade de reconhecimento público da presença dessas comunidades.
“Nos municípios paulistas o Projeto Povos vem atuando com comunidades tradicionais inseridas em áreas urbanizadas ou em processo de urbanização, onde a presença histórica dessas populações muitas vezes se torna pouco visível no espaço urbano. Nessas situações, a caracterização territorial contribui para registrar memórias, trajetórias familiares, formas de uso do território e referências culturais que ajudam a compreender a permanência dessas comunidades e suas estratégias de resistência em meio às transformações da paisagem urbana” — Márcia Malheiros
Ao mesmo tempo, reflete Márcia, a caracterização tem se mostrado fundamental para tornar visíveis territórios tradicionais que seguem existindo e se reorganizando dentro de núcleos urbanos e áreas turísticas, contribuindo para o fortalecimento da identidade comunitária e para a afirmação de direitos territoriais tradicionais que convivem diretamente com dinâmicas urbanas como o turismo de massa, a especulação imobiliária, a expansão de serviços e infraestruturas e a presença crescente de moradores não pertencentes às comunidades.
Em 2025, por exemplo, o projeto desenvolveu atividades junto à comunidade caiçara da Vila do Abraão, em Ilha Grande (Angra dos Reis (RJ)), local que concentra o principal núcleo urbano, comercial e turístico da ilha. “Nesse contexto, o trabalho de cartografia social permitiu identificar como práticas tradicionais de uso do território - como a pesca artesanal, os caminhos históricos entre praias, saberes e práticas de cuidado, referências culturais, como festejos e celebrações, e os espaços de sociabilidade comunitária - permanecem presentes mesmo em um ambiente marcado por forte pressão turística e por transformações urbanas aceleradas”, explica Márcia.
Comunidades Tradicionais em contextos urbanos
A história de muitos povos e comunidades é marcada por processos de deslocamento forçados, resultantes de diferentes formas de pressão sobre seus territórios. Helena Tavares Gonçalves, assessora de coordenação de Justiça Socioambiental, ressalta que a abertura de rodovias, a grilagem de terras, a expansão da especulação imobiliária, o avanço do turismo predatório e a implantação de grandes empreendimentos frequentemente provocam a expulsão ou o deslocamento dessas populações.
“A essas dinâmicas somam-se políticas estatais que, ao priorizarem determinados modelos de desenvolvimento e ordenamento territorial, acabam por desconsiderar ou invisibilizar a presença histórica dessas comunidades. Nessas situações de desterritorialização, o afastamento do território de origem não significa, necessariamente, a ruptura com o modo de vida tradicional. A memória social, a história compartilhada e os conhecimentos acumulados tornam-se elementos fundamentais para a reorganização das práticas culturais e das formas de organização comunitária em novos contextos” — Helena Tavares Gonçalves
Comunidades que vivenciam processos de migração frequentemente reinventam suas formas de existência a partir da articulação de saberes, práticas, costumes e crenças em outros espaços. Em contextos urbanos, por exemplo, é comum que esses grupos recriem redes de solidariedade, práticas culturais e formas específicas de uso do espaço, reafirmando vínculos coletivos e referências identitárias. “A memória e a história compartilhada atuam, assim, como elementos estruturantes que permitem reorganizar os conhecimentos tradicionais e sustentar o sentimento de pertencimento”, aponta Helena.
É nesse processo de adaptação e recriação que determinados espaços da cidade também podem ser compreendidos como territórios tradicionais, pois passam a abrigar práticas, valores e relações sociais que expressam a trajetória histórica dessas comunidades. O território ocupa um lugar central na constituição dos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais. “Mais do que um espaço físico de ocupação, é o lugar em que se organizam práticas produtivas, relações sociais, conhecimentos transmitidos entre gerações e formas próprias de relação com a natureza. É no território que se materializam a memória coletiva e as referências simbólicas que sustentam o sentimento de pertencimento e a identidade de um povo, possibilitando a reprodução dos modos de vida ao longo do tempo”, argumenta.
[GALERIA DE FOTOS: Imagens das dinâmicas urbanas e tradicionais convivendo nos municípios paulistas]
Léa Lameirinhas Malina, coordenadora de campo do Projeto Povos, atua nas comunidades tradicionais entre Boracéia (divisa com Bertioga) e Barra do Sahy, extremo da costa sul de São Sebastião (SP). Ela conta que algumas dessas comunidades sofrem com o processo de especulação imobiliária que teve início, principalmente, após o asfaltamento da BR-101. “A Rio-Santos mudou muito o contexto regional: áreas que antes eram de roça hoje viraram condomínios, em especial da elite de São Paulo”, declara, sinalizando que desde a construção da rodovia os caiçaras ficam espremidos no meio de tantos empreendimentos, pagando mais caro por alugueis, compras no mercado e outras necessidades. “Isso mudou o cotidiano, trazendo a demanda de comércio com preços altos, o que aumenta o custo-de-vida no território”, lamenta.
O racismo ambiental, consequência das mudanças na paisagem e realidade diante da emergência climática, soma-se ao racismo que comunitárias e comunitários sofrem no mercado de trabalho e com a perda de direitos. Lindalva Silva de Oliveira, mestra de folia de reis no Morro do Abrigo, localizado na região central de São Sebastião (SP), lembra com emoção o passado e se entristece com o que vive no presente. “Nós fomos criados com agricultura de subsistência. As famílias plantavam feijão, mandioca, amendoim, todos tinham galinha, porco, pato, cabrito. Hoje a lei não permite, a nossa cultura ficou para trás, temos que nos conformar em ganhar pouquinho pra sobreviver”.
“Quando éramos crianças achávamos que éramos pobres porque vivíamos na roça, e hoje vemos que estávamos enganados. Nós somos pobres porque não podemos mais roçar, carpir, mesmo no terreno que tenha nos sustentado a vida inteira. Nem podemos mais ensinar para os nossos filhos a viver da roça” — Lindalva Silva de Oliveira
Alternativas para o sustento das famílias acabam se tornando símbolos de resistência diante dessa situação. Lindalva considera o artesanato a saída encontrada por muitas pessoas para garantir a geração de renda. “Minha mãe foi muito guerreira e desde cedo nos ensinou a costurar, meu pai sempre falou que íamos aprender a trabalhar para não depender de ninguém. Hoje eu sou artesã e lidero um grupo de mulheres artesãs em São Sebastião, temos que procurar o fomento ao artesanato, valorizar nossos produtos, fazer com que as pessoas valorizem… Temos que nos dedicar a isso”, enfatiza.
Conflitos nos Territórios Urbanizados
Rodrigo Pennut, coordenador de campo do Projeto Povos, comenta os desafios da caracterização em comunidades mais urbanizadas do território. “Há conflitos como, por exemplo, a violência, o tráfico, a falta saneamento básico, a perda de práticas tradicionais, conectada, às vezes, à especulação imobiliária ou à chegada de populações de outras regiões, o que diminui as práticas tradicionais como as roças, a pesca”.
Para Maria Júlia Guerra, quilombola da Ilha da Marambaia e pesquisadora comunitária do Povos, é muito impactante realizar o trabalho de caracterização em ilhas diferentes da realidade da sua comunidade. “Na Marambaia não tem carro, não vemos turistas… Percebo contextos díspares, nas outras comunidades preciso ter atenção com o trânsito de carros e motos, preciso me lembrar de caminhar na calçada. Realidades tão diferentes, mesmo em ilhas parecidas”.
“Na Ilha de Marambaia todas as casas são de moradores, cada pessoa tem uma história com aquele lugar, as casas têm cercas vivas! Enquanto nos outros lugares já existem casas de pessoas de fora, a especulação imobiliária está presente. Em Jaguanum, fiquei surpresa com os muros de concreto, às vezes altos! As pessoas vão para uma ilha que é de mata e constroem um muro que as separa da mata. Elas constroem casas como se não estivessem naquele lugar” — Maria Júlia Guerra
O impacto de presenciar questões tão contraditórias aflige Maria Júlia, que acredita na importância da luta por políticas públicas que não chegam com facilidade para tantas cidadãs e cidadãos. “A distribuição de água é desigual, nós sofremos muito com a falta d'água, falta de transporte público. Percebemos muita evasão escolar por questões de falta de estrutura, as pessoas preferem sair da ilha. Por outro lado, entendo que nas comunidades quilombolas e indígenas conseguimos ter acesso aos nossos territórios. Eu fiquei perplexa nas comunidades caiçaras ao ver como as pessoas são impedidas de viverem em seus territórios”, desabafa.
Nas comunidades tradicionais do litoral sul do Rio de Janeiro, as equipes do Projeto Povos convivem em contextos muito diversos. Lorrane, quilombola da Ilha da Marambaia (Mangaratiba - RJ) e pesquisadora comunitária do Povos, fica surpresa ao perceber que muitos amigos que moram na cidade querem se conectar com a natureza indo viver nas ilhas, e chegando lá acabam mantendo os hábitos da cidade. O paradoxo reflete negativamente no dia-a-dia de comunitárias e comunitários.
“A violência é uma realidade que não conhecemos na nossa comunidade. Em outros lugares percebemos uma rixa entre as pessoas, muitas vezes o ambiente não é seguro. Na nossa casa sentimos que as pessoas mais velhas resistem à criminalidade e percebemos a tristeza no olhar por conviverem com questões como as drogas, por exemplo. Nas comunidades em contexto urbano há estrutura, mesmo que precária, enquanto nas nossas falta muita estrutura, saneamento básico, postos de saúde, e a comunidade tem vontade de preservar a cultura e lutar por direitos, sempre com os mesmos sonhos: ensino digno, posto de saúde digno”, relata.
Cartografia Social Insurgente como ferramenta de luta
Nos territórios tradicionais localizados ao sul de Paraty (RJ), o Projeto Povos concluiu a caracterização de Trindade, Praia do Sono e Ponta Negra. São três comunidades caiçaras que compartilham aspectos socioculturais, socioeconômicos e socioambientais e estão intimamente relacionadas ao ambiente. Assim, é impossível dissociar os elementos próprios da cultura daqueles ambientes: a Mata Atlântica, as restingas, os mangues e o mar contam muito sobre o modo de vida caiçara, suas técnicas de pesca, a forma de manejar a floresta e se relacionar com os bens naturais.
[GALERIA DE FOTOS: Paisagens naturais e integradas das comunidades tradicionais]
De acordo com a publicação “Projeto Povos: Território, Identidade e Tradição. Territórios Caiçaras do Sul de Paraty”, as três comunidades enfrentam a especulação fundiária, com a presença de grileiros e veranistas. O caso de Trindade é emblemático, pois a grilagem é institucionalizada por uma S/A – empresa de sociedade anônima. Praia do Sono e Ponta Negra enfrentam o assédio de uma família que alega ser dona de quase toda a península da Juatinga/Cairuçu. O condomínio Laranjeiras é outro fator de conflito na região, limitando o ir e vir e impondo restrições e constrangimentos aos moradores das três comunidades.
Trindade fez História
A história recente da Trindade é uma história de muita luta e resistência contra a especulação fundiária e o racismo ambiental. Na mesma época em que a BR-101 era aberta e cortava as comunidades de Angra dos Reis, Paraty e Ubatuba, representantes de uma empresa multinacional, composta de acionistas anônimos, iniciaram uma investida contra os trindadeiros, dizendo-se dona de toda área entre o Morro do Cepilho e a Praia dos Ranchos (praticamente toda a área habitada naquele momento). Prática comum dos grileiros à época, levaram búfalos que pisavam as roças e assustavam os moradores. As ameaças levaram muitos trindadeiros a vender terras por valores simbólicos ou mesmo a abandonar suas casas e quintais, refugiando-se na mata e em cavernas entre Paraty e Ubatuba. 👉 Acesse aqui o documento completo "Projeto Povos: Território, Identidade e Tradição"
A construção da BR-101, iniciada em 1972, facilitou a chegada de políticas públicas importantes nas comunidades (como transporte, saúde e educação). Por outro lado, abriu caminho para a chegada de novas pessoas, mercadorias e valores, que trouxeram novas lógicas de uso e ocupação do território – além de promover o desmatamento e o deslocamento de grandes volumes de terra. A estrada alterou drasticamente a paisagem, rasgou ao meio povoados caiçaras, e causou deslizamentos e soterramento de casas de moradores em territórios tradicionais do norte de Paraty, como em Praia Grande, São Gonçalo e Tarituba.
Nesse contexto de profundas mudanças no território, a questão da identidade caiçara se torna central para manutenção dos modos de vida e resistência dessas comunidades. O trabalho do Projeto Povos mostra como, apesar de todas essas transformações e ameaças, as comunidades tradicionais do norte de Paraty seguem resistindo apesar dos conflitos.
Um grande projeto de alteração da dinâmica econômica de toda a Baía da Ilha Grande vem sendo discutido no governo federal e há projeto de lei apresentado no Senado Federal que busca flexibilizar as regras/categorias de unidades de conservação da região. Proposta em sintonia com o modo de desenvolvimento hegemônico, o chamado Projeto Cancún Brasileira também é apontado como ameaça ao modo de vida tradicional na região.
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Em Paraty há um histórico de bairros que se formaram com a chegada da especulação imobiliária nas comunidades tradicionais. A Ilha das Cobras, bairro majoritariamente caiçara, teve início com a ocupação de pessoas que foram expulsas dos territórios tradicionais. Segundo Raquel Albino da Conceição, assessora de campo do Projeto Povos, nas comunidades tradicionais em contexto urbano tem muita gente que cresceu distanciado da história e da cultura, mesmo sabendo sobre a ancestralidade dos antepassados, primeiros habitantes dessas localidades.
“Em Paraty não temos muito o espaço do brincar na rua, a liberdade. Nos bairros considerados periféricos percebemos o quanto as pessoas têm medo. E uma dificuldade específica que percebemos ao longo das ações do Povos é o autorreconhecimento e as questões de identidade, porque ouvimos muito que só é considerada comunidade tradicional as comunidades indígenas, caiçaras e quilombolas."
“Nas comunidades tradicionais a realidade é mais igual entre todos. Na cidade convivemos com pessoas que têm outra mentalidade. Também é preciso buscar trabalho, tem a falta de perspectiva de continuar os estudos. O turismo de massa impõe um contexto que limita a manutenção das tradições” — Raquel Albino da Conceição
Raquel acredita que, em Paraty, a juventude não ter contato com as práticas tradicionais é um fator relevante. Nos territórios tradicionais, as crianças e jovens convivem com avós, tios e outros mais velhos, mantendo diálogo intergeracional cotidiano. “Nos bairros é mais difícil de isso acontecer. Nas comunidades tradicionais em contexto urbano, algumas práticas ancestrais são mantidas de forma adaptadas. Algumas pessoas vivem de pesca, plantam ervas no quintal… E assim, vão ressignificando a cultura”, conclui.
A história da Ilha das Cobras desperta inúmeras considerações quando refletimos sobre as comunidades em contexto urbano. Próxima ao centro histórico, está localizada entre o Rio Mateus Nunes e a pista do aeroporto, com acesso ao mar pelo rio e pelo cais dos pescadores. Esse bairro, cercado de água, cresceu nas mesmas proporção e ritmo em que as famílias caiçaras foram pressionadas a deixarem seus territórios. É hoje um importante espaço de construção de vínculos e socialização entre essas famílias no contexto da cidade.
Anna Maria De Castro Andrade, antropóloga da equipe, observa que a Ilha das Cobras reúne caiçaras de diversas comunidades de sul a norte de Paraty. “Alguns são moradores permanentes. Outros, ocasionais: compraram ou alugaram casas como segunda moradia. Para as famílias das costeiras, que só chegam em Paraty de barco, a Ilha das Cobras se tornou um território estratégico. No cais dos pescadores há barcos de pesca e pequenos botes utilizados para transporte das famílias e também para turismo”.
Anna Maria conta que, ao longo do processo de caracterização desse bairro, em específico, as equipes visitaram a Ilha, andando nas ruelas, conversando com moradoras e moradores e registrando quanta vida acontece para além do que se costuma falar sobre o local. “Conversamos com Jane de Almeida, caiçara nativa do Saco Claro, que mora atualmente com o marido e três filhos na Ilha das Cobras. Ela contou que no bairro tem muita gente conhecida, que toda hora topa com o pessoal da costeira, que as casas são próximas. Tem o supermercado da rua principal, a praça central com a quadra de esportes, a Igreja Deus é Amor, o cais dos pescadores, todos são lugares de intensa circulação dessas famílias de parentes da península da Juatinga até a Ponta Grossa, e comunidades do norte”.
“As crianças e jovens crescem juntos, estudando nas mesmas escolas. A vida caiçara se tece e se reinventa no espaço da cidade, e isso não significa abandonar sua identidade e sua visão de mundo. Os vínculos com seus territórios permanecem fortes em muitos casos. Os que não mantiveram moradia em sua comunidade de origem muitas vezes estão presentes, visitando família, amigos e parentes. Na Ilha das Cobras, a dinâmica pesqueira dessas famílias é preservada. A proximidade do mar é um aspecto que facilita essa resistência. A embarcação da família da Jane, do Saco Claro, por exemplo, sobe o rio Mateus Nunes e fica atracada em frente à casa. Os botes dos caiçaras ficam atracados há poucos minutos das residências. A comunidade da Ilha das Cobras constrói, cotidianamente, relações de vizinhança e redes de apoio entre familiares. Jane contou que, apesar de haver episódios de violência, ela não se sente ameaçada quando anda pelo bairro. A Ilha é um espaço de segurança para ela. A Ilha das Cobras é casa.” — Anna Maria Andrade
[FOTOGRAFIA: Embarcação Saco Claro atracada no rio]
Legenda: Saco Claro, nome do barco da família de Jane, parado em frente à casa dela na Ilha das Cobras, em Paraty (RJ)
Sobre o Projeto Povos
Reivindicação histórica do Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT), a realização do Projeto Povos é uma medida de caracterização, exigida pelo IBAMA, no âmbito do licenciamento ambiental federal da atividade de produção de petróleo e gás da Petrobras no Polo Pré-Sal. Quem executa é o Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS), uma parceria entre o FCT e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), a Comissão Guarani Yvyrupá (CGY) e a Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras (CNCTC). Até o ano de 2024 o trabalho do Projeto Povos em Angra dos Reis (RJ), Paraty (RJ) e Ubatuba (SP) resultou na elaboração de mais de 200 mapas, 11 publicações impressas disponíveis também em formato digital e uma plataforma online documentando todos os dados a partir do georreferenciamento de 7.546 elementos cartográficos com participação ativa de mais de 850 lideranças, interlocutores e pesquisadores comunitários.
Todas as informações divulgadas são autorizadas por participantes das etapas do Povos, bem como pela CONAQ, CGY e CNCTC.
🌐 Saiba mais e consulte os mapas: Visite a Plataforma Povos
Texto: Débora Nobre Monteiro



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