Seminário de Integração do OTSS acontece em Paraty/RJ com destaque para ações de promoção de Territórios Sustentáveis e Saudáveis
- Débora Monteiro
- 8 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: 25 de fev.
Programação intensiva oportunizou encontros históricos, intercalando momentos de mística com falas de convidados importantes na história do OTSS e do FCT, reuniões de trabalho, grupos de discussão, manifestações e protestos a favor da luta pelo respeito às identidades e salvaguarda dos territórios tradicionais, além da presença das crianças e jovens e a integração na celebração da Cozinha das Tradições e nas noites culturais
O Observatório de Territórios Sustentáveis e Saudáveis da Bocaina (OTSS) realizou na primeira semana de julho de 2025 o Seminário de Integração em Paraty/RJ, reunindo pessoas colaboradoras, parceiras e comunitárias em três dias de encontros potentes para refletir sobre o passado, o presente e o futuro dos trabalhos realizados em articulação com o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) nos 7 municípios do litoral sul do Rio de Janeiro e litoral norte de São Paulo: Mangaratiba, Angra dos Reis, Paraty (RJ); Ubatuba, Caraguatatuba, Ilhabela e São Sebastião (SP).
A abertura trouxe como convidada a Mestra Benedita Martins para compartilhar suas bênçãos e saudar a espiritualidade dos rezos e das ervas medicinais. O momento emocionante guiou toda a programação, intensa nos movimentos de reflexão e ação para salvaguarda dos territórios tradicionais.

O primeiro dia teve como tema o passado - “Conhecer nossas raízes, nossas ancestralidades e a trajetória que nos trouxe até aqui” - e a oportunidade de saudar integrantes do OTSS foi festiva no convite para que as equipes subissem ao palco. O registro histórico desse momento de ampliação das frentes de luta do FCT foi eternizado nas fotografias dos grupos que compõem a Incubadora de Tecnologias Sociais, Coordenação de Justiça Socioambiental, Coordenação de Gestão de Saberes, Coordenação de Gestão Territorializada, Coordenação de Comunicação, Coordenação de Governança e Gestão, Coordenação Executiva e Coordenação Geral.
Para abrir as formalidades, a audiência acompanhou as falas de Ivanildes Pereira e Leonardo Freitas, convidados a refletirem a respeito dos desafios e conquistas em décadas de aliança do movimento social com uma instituição consolidada como a Fiocruz. Coordenador Geral de Governança e Gestão do OTSS, Leonardo enfatizou os objetivos do Seminário e a urgência de articulação no contexto mundial em que vivemos hoje. “Os objetivos do Seminário passam por nos ouvirmos, promovermos a integração das equipes para nos conhecermos, conversarmos sobre o nosso projeto político e engajar as pessoas”. Compreender o conjunto de mudanças, fortalecer relações com parcerias, analisar o contexto político atual e consolidar o que conduz a atuação do FCT foram as ideias para criar essa circunstância de união. “Nós somos Fiocruz”, destacou Leonardo, enfatizando o Programa da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS).
“A história do FCT começou em espaços de encontro abertos, conversando embaixo das árvores, nos terreiros. E agora a nossa luta e a nossa voz já não estão mais sozinhas nos territórios, estamos alcançando o Brasil e o mundo, graças à essência do OTSS, que preserva a coletividade, acolhendo e multiplicando o conhecimento”, Ivanildes Pereira, liderança da aldeia Guarani Mbya Rio Bonito, pesquisadora do OTSS e integrante do FCT.
Na mesa “Narrativa histórica: Povos Originários, Comunidades Tradicionais, desigualdades socioambientais e saúde no Brasil”, Leonardo mediou a conversa entre a Mestra Laura Braga, do Quilombo da Fazenda; Ivanildes, representando a coordenação tenondé da Comissão Guarani Yvirupá (CGY); e Paula Callegario, caiçara de Paraty, representando a Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras. A Mestra Laura celebrou o quanto o FCT está alinhado com a união dos 3 povos: indígenas, quilombolas e caiçaras. “O avanço é tanto que hoje quase 200 comunidades estão unidas por meio da luta. E o OTSS amplifica essa aliança alcançando muito os jovens, o futuro de amanhã. Eles precisam estar presentes e entender seus papeis para trabalhar com garra, resistindo às opressões. Temos o exemplo da educação diferenciada no Quilombo da Fazenda, agora a juventude está sonhando com a faculdade no nosso território”.
A linha do tempo foi narrada ao longo do dia, e duas pessoas complementaram a exibição de filmes institucionais da Fiocruz e do FCT: Valcler Rangel, Vice-Presidente da VPAAPS, e Marcela Cananéa, coordenadora de Justiça Socioambiental do OTSS e integrante do colegiado de coordenação do FCT. Valcler explicou como a questão da imunização e da prevenção de doenças marcam a história da Fiocruz e do SUS, com o amplo acesso às vacinas. “A vivência das doenças marcam a nossa memória, e saúde não é ausência de doença. Pensar a saúde integral é essencial, e vocês estão no Seminário trabalhando uma lógica inovadora para a Fiocruz”, pontuou.
Para Marcela, trabalhar para a saúde envolve a complexidade das frentes de luta do FCT. “Enquanto a campanha ‘Preservar é Resistir’ conta ao mundo o quanto produzimos ciência e temos saberes que precisam ser defendidos como instrumentos de luta, a campanha ‘Territórios Vivos’ movimenta afirmação política e cultural. Todas as pautas surgem a partir das reivindicações e do engajamento das pessoas”. É o caso do FCT mirim, que nasceu para trazer as crianças para a mobilização popular, e da recente mobilização pelos direitos LGBTQIAPN+, que ganha cada vez mais força especialmente contra a homofobia e a transfobia.
Nosso trabalho promove saúde!
A Primeira Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa (Canadá) 1986, apresentou como documento conclusivo uma Carta de Intenções para contribuir com a saúde global até o início do século 21. A Carta de Ottawa foi citada na fala de Helena Tavares, assessora da Coordenação de Justiça Socioambiental do OTSS. “Aqui a saúde é coletiva e comunitária. Saúde acontece onde a vida acontece. Promover saúde é garantir boas condições de vida, porque saúde também é um direito que depende de educação, por exemplo”.
A promoção da saúde é missão das diversas ações do Observatório, e o tema esteve em destaque na conversa mediada por Helena Rodrigues, coordenadora adjunta de governança e gestão do OTSS, com Julio Karay, assessor especial de Articulação Comunitária do OTSS e integrante da CGY; Vagner do Nascimento, coordenador geral do OTSS e integrante do Colegiado de Coordenação do FCT; Indira Alves França, coordenadora da Gestão de Saberes do OTSS; e Edmundo Gallo, coordenador geral do OTSS e pesquisador titular da Fiocruz. “Eu me lembro de um projeto antigo, nas ondas da mata atlântica, iniciativa com rádios comunitárias que nos questionava de onde viemos, o que queríamos… Era um projeto de formação política, foi lá que aprendemos a falar português”, afirmou Julio.

O passado traz o respeito à ancestralidade. Para Vaguinho, o FCT compreende a resistência das histórias antigas dos territórios e como indígenas, caiçaras e quilombolas compartilhavam o cotidiano, chegando aos dias de hoje, quando as pessoas mantêm as práticas de troca dos antigos. Esse legado é a base do início do diálogo com a Fiocruz. “Somos referência porque temos a aliança de uma instituição pública com o movimento social de povos e comunidades tradicionais indígenas, caiçaras e quilombolas”.
Gallo acredita que a singularidade dessa aliança é feita de criatividade, inovação, ousadia e muito afeto. “Nós realizamos cada atividade com muito cuidado e reverência, e estamos reunidos no Seminário para vislumbrarmos o futuro com novos projetos de geração de trabalho e renda, de discussão a respeito do mar e das possibilidades e desafios trazidos pela inteligência artificial”.
“A história não é linear, e estamos em um momento essencial de diálogo para trabalhar as urgências do nosso tempo. A escuta é muito importante, exercitar isso com as diferenças é muito importante. Nossa potência está na singularidade da união entre o movimento social e uma instituição consolidada como a Fiocruz. A Governança Viva oportuniza que a gente se ajuste aos desafio impostos a cada momento”, Indira Alves França.
A primeira Noite Cultural foi conduzida pelo Mestre Pardinho e a “Concantar - Confraria de Cantadores de Tarituba”. Além dos sabores ímpares da Cozinha das Tradições, responsável pela alimentação durante todo o Seminário, incluindo um Banquetaço sensacional preparado a muitas mãos por pessoas de 14 comunidades tradicionais.

Além de colaboradores da Fiocruz e do FCT, participaram do seminário parceiras e parceiros da Coordenação Nacional de Comunidades Negras e Rurais Quilombolas (CONAQ), Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), Coordenação Nacional de Comunidades Tradicionais Caiçaras (CNCTC), Fórum de PCTs do Vale do Ribeira, UFF/IEAR, UFRJ, Unesp, Unicamp, Colégio Pedro II, Ong Verde Cidadania, Ong Serrapilheira, Embrapa Solos, Petrobras, Fundação Florestal, Ministério da Igualdade Racial, Ministério Público, Defensorias Públicas de São Paulo e Rio de Janeiro e Iphan.
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Reportagem: Débora Nobre Monteiro





















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