Tekoha Reko Porã: Caravana do Bem Viver celebra o Abril Indígena e o futurismo ancestral na Aldeia Boa Vista, em Ubatuba (SP)
- Juliana Vilas
- 14 de mai.
- 5 min de leitura
Atualizado: 15 de mai.
O evento, realizado pela parceria entre a Fiocruz Mata Atlântica, OTSS, FCT e CGY, aplicou a Ecologia de Saberes para promover saúde e bem viver, com programação que exalta e valoriza a cultura e a filosofia guarani mbya

A 4ª edição da Caravana do Bem Viver, realizada entre 27 e 29 de abril de 2026, colocou em evidência o “Tekoha Reko Porã: Abril Indígena na Mata Atlântica”. Promovido pela parceria entre a Fiocruz Mata Atlântica, o OTSS, o Fórum de Comunidades Tradicionais (FCT) e a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), o evento promoveu a ecologia de saberes pela promoção do bem viver e da saúde integral. Uma programação especial foi realizada na Aldeia Guarani Mbya Boa Vista, em Ubatuba (SP), nos dias 28 e 29 de abril. A série de atividades, vivências e rodas de conversa revelaram que, na visão guarani, o conceito de saúde vai muito além da "ausência de doença". Transcende a perspectiva biológica e está diretamente relacionado à cultura, ao bem viver e ao direito ao território.
“A terra não é um recurso, mas uma extensão do corpo. Este evento é um exercício pensado para fortalecer a juventude no nosso território, para trazer reflexões sobre bem viver, preservação cultural e ancestralidade. A saúde guarani depende do Nhandereko (modo de vida tradicional)”
Ivanildes Kerexu, coordenadora-geral do FCT e do Eixo Saúde e Bem Viver
Valcler Rangel, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz (VPAAPS/Fiocruz), lembrou que a saúde é impactada por vulnerabilidades como insegurança alimentar e a falta de regularização fundiária. Já Ana Feitosa, coordenadora de Gestão da VPAAPS/Fiocruz, expressou a felicidade da Fiocruz em “construir essa história junto às comunidades, promovendo saúde em territórios saudáveis”.
"A Caravana do Bem Viver é uma iniciativa muito importante para a construção de processos que fortalecem os Povos e Comunidades Tradicionais. E nesta edição, a gente traz o tema o Abril Indígena, considerando que vai ser realizada num mês de visibilidade para a luta dos povos originários. Uma parte das atividades acontecerá nas aldeias e outra no Centro Histórico de Paraty: dois espaços de expressão cultural, de luta e resistência."
Marcela Cananea, coordenadora-geral do OTSS e do FCT
Marília Capponi, coordenadora técnica do projeto de Saúde Indígena e Bem Viver do OTSS, enfatizou a importância da Ecologia de Saberes: “Desde o início, planejamos e construímos este evento de forma coletiva. Tudo desenhado pela comunidade, na confiança entre todas e todos o território.” A coordenadora da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), Juliana Keruxu, comemorou o momento de celebrar com os parentes e lembrou o quanto “esses encontros fortalecem a luta”.
Além do caráter coletivo da programação, o roteiro seguiu as orientações dos mais velhos. O primeiro dia (28 de abril) começou com o tradicional acolhimento de chegança, repleto de cantos e danças. Parentes e lideranças guaranis de outros territórios –aldeias Itaxi, Sapukay, Rio Bonito e Rio Silveiras– se encontraram em clima de celebração da cultura tradicional que se mantém viva, pulsante e compartilhada entre as gerações.
“Quando falamos com a nossa juventude e buscamos repassar nossos conhecimentos, isso precisa ser feito na nossa língua guarani. Por isso, quero explicar aos nossos parceiros, pois o uso da nossa língua é fundamental”
Ivanildes Kerexu
O dia seguiu com pautas políticas, diálogos e trocas de experiências. Rodas de conversa sobre o Turismo de Base Comunitária (TBC) e debates sobre a Convenção 169 da OIT, conduzidos pelo cacique Marcos Tupã, concentraram a atenção de todas e todos. E a cultura guarani brilhou muito nas atividades práticas, como as oficinas de meliponicultura, artesanato e pintura corporal.

O segundo dia (29 de abril) na Aldeia Boa Vista promoveu um grande encontro entre saberes tradicionais e desafios contemporâneos. De manhã, a juventude participou da oficina sobre o processo de colheita e despolpa da juçara.
“Achei muito interessante porque a maioria dos jovens nem conhecia o processo. É uma oportunidade de continuar esse trabalho no território”.
Anderson Karai Mirim, comunicador da Aldeia Sapukay, em Angra dos Reis/RJ
A programação do segundo dia incluiu ainda o plantio coletivo de mudas de erva-mate, jenipapo e urucum, com a intensa presença de pesquisadores da Fiocruz Mata Atlântica (FMA). Andrea Vanini,da FMA, reforçou que, para os indígenas, saúde é “terra demarcada, água limpa, alimentação tradicional, cultura e língua viva”.
“É muito bom saber que podemos contar com a erva mate que, para nós, tem significado especial. Nos rituais de batismo, nós maceramos a erva e compartilhamos o chá entre todos os presentes”.
Lucas Xunu, da aldeia Sapukai
À tarde, o psicólogo Fábio Arévalo trouxe a saúde mental para o debate, com muita sensibilidade, ao abordar o impacto do uso abusivo de redes sociais, álcool e outras drogas, principalmente entre os jovens. E, para encerrar, um espetáculo de arte, estilo e orgulho guarani. A 2ª Edição do Desfile da Beleza e do Bem Viver levou à passarela da aldeia Boa Vista as mais belas ferramentas de resistência política e fortalecimento de autoestima coletiva. “O que nós vamos mostrar aqui é nossa beleza interior. Queremos reafirmar que a criança, o jovem, o povo guarani tem muita beleza, seja pela pintura, pelo cabelo e pelos modos de vida. Assim, valorizamos e fortalecemos nossa autoestima", definiu Ivanildes Kerexu, uma das idealizadoras do desfile.
O evento trouxe para todos a percepção de que a proteção da Mata Atlântica está intimamente ligada à garantia de direitos e preservação da cultura e dos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais. As palavras de Ana Feitosa podem resumir o espírito da Caravana e do Abril Indígena na Mata Atlântica. “Temos a convicção de que o futuro é ancestral”.
:: Atividades do Abril Indígena na Aldeia Guarani Mbya Boa Vista (Ubatuba/SP)::
→ Rodas de Conversa:
* Turismo de Base Comunitária (TBC).
* Sobre "Saúde e bem-viver - Impactos do uso abusivo do celular" (com o psicólogo Fábio Arévalo).
* Saúde e Bem Viver - álcool e outras drogas.
* Convenção 169 da OIT, com a Defensoria Pública e o cacique Marcos Tupã
→ Oficinas:
* Plantio de mudas de jenipapo, urucum e erva-mate (doadas pela Fiocruz Mata Atlântica e incubadora do OTSS).
* Colheita e despolpa da juçara, e vivência de agricultura indígena.
* Pintura corporal.
* Artesanato.
* Sobre a importância do mel para a cultura guarani.
* Sobre caramujos e técnica de captura (promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz - IOC/Fiocruz).
→ Apresentações Culturais:
* Cantos e danças tradicionais guarani (incluindo acolhimento cultural).
* Música e gastronomia tradicionais guarani.
→ Eventos Especiais:
* Mesa de recepção das Lideranças.
* Mesa de Abertura com representantes do OTSS, FCT, CGY, FMA e VPAAPS.
* 2ª Edição do Desfile da Beleza e do Bem Viver
→ Outras atividades:
* Café da manhã com juçara.
* Jantar e confraternização.
* Plantio coletivo de mudas de erva-mate.
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Fotos: Ronaldo Guarani
Texto: Juliana Vilas





